quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Crítica: Reencontrando a Felicidade (Rabbit Hole, 2010)

Indicado ao Oscar 2011 de Melhor Atriz para a veterana Nicole Kidman, "Rabbit Hole", com tradução brasileira forçada "Reencontrando a Felicidade", mostra não só uma das melhores performances femininas deste ano, como também a força de um elenco poderoso sob o texto de um roteiro inteligente, capaz de emocionar sem fazer muito.

por Fernando Labanca

Confesso que o filme nunca me chamou a atenção por nada, o título nacional ajudou bastante para o meu preconceito, Nicole Kidman é uma atriz que admiro mas estava afastada e fazia tempo que não a via fazendo algo de qualidade, até que ele chega nos cinemas bem tímido mas recolhendo críticas altamente positivas, me fez pensar duas vezes, felizmente.

O longa dirigido por John Cameron Mitchell, narra a história de um estranho casal, Becca (Kidman) e Howie Corbett (Aaron Eckhart), vivem naquele típico subúrbio norte-americano, jardins impecáveis na frente de mansões que escondem famílias "felizes". A estranha rotina do casal é logo confirmada, perderam recentemente um filho, atropelado por um carro em alta velocidade. A partir de então, tentam de diversas formas, esquecer o que aconteceu.

Passam a frequentar uma reunião para pais que perderam filhos, é onde Howie conhece Gaby (Sandra Oh), uma mulher que perdera seu filho há 8 anos e a todo este tempo está tentando se recuperar, quadro que Becca faz questão de não vivenciar, deseja viver em paz em curto tempo, passa a retirar detalhes de sua casa que o lembre, tenta encontrar respostas para o fato, é quando que reencontra com Jason (Miles Teller), o jovem que matou seu filho e que tenta se recuperar também, está prestes a terminar o colégio e devido ao ocorrido se fixa numa idéia mirabolante para a criação de um livro, se fecha na fantasia, na idéia onde pessoas entram pela "toca do coelho" e encontram a verdadeira felicidade, felicidade que jamais seria encontrada na vida real.


A ideia de "Rabbit Hole" é bem simples, o segredo da obra está nos pequenos detalhes, na maneira como o roteiro tenta resolver seus conflitos, na maneira como as personagens encaram seus problemas, está em cada diálogo e em cada pequena ação. Em suma, o filme é bem original, a trama já fora vista antes em outras obras, mas o jeito como ela acontece é bem diferente, não força a barra, não tenta ser melodramático e em nenhum momento as personagens agem de forma clichê, tudo o que é dito tem fundamento, é verdadeiro, e acima de tudo, é humano.

A direção de John Cameron é incrível, faz tomadas muito bem elaboradas e sequências dignas de admiração. O roteiro, mais uma vez, vale a pena conferir, é vendo tal pérolas como esta que me faz ter a certeza de que ainda existe vida inteligente em Hollywood. A trilha sonora, intrumental, sempre chega na hora certa e sabe guiar os momentos mais tensos até aos mais dramáticos. Ainda há humor e muito bem inserido, aliás.

O que dizer de Nicole Kidman? É até complicado avaliá-la, fiquei surpreso este ano ao vê-la em "Esposa de Mentirinha", mas sua presença em "Reencontrando a Felicidade" compensou tal fiasco, esta é a verdadeira Nicole Kidman, que sabe fazer drama como ninguém, sua personagem é complexa e cheia de oscilações, ela encara perfeitamente o desafio, sua indicação ao Oscar não foi exagero, ela simplesmente dá um show. Seu companheiro de cena, Aaron Eckhart também fez bonito em cena, é um ótimo ator e no papel certo ele sempre consegue convenser, é carismático e domina seu texto e seus diálogos com Kidman são fantásticos, há um belíssimo jogo de cena entre os dois atores. Dianne Wiest faz a mãe de Becca e me surpreendeu bastante, tem mais uma grande performance em sua carreira, assim como Sandra Oh, a eterna Christina Yang de Grey's Anatomy (que só por ela já vale a série) que está fantástica no filme. E a revelação Miles Teller, jovem e que consegue contracenar com Kidman sem perder o brilho, emociona e também convence em seu papel.

Uma obra emocionante, que comove sem exageros ou melodramas, uma trama objetiva, sem rodeios, que consegue com muito êxito mexer com os sentimentos do público, justamente por focar no humanismo de seus personagens e a loucura que se torna a vida deles após a morte de um filho, que como todos dizem, é a pior dor do mundo. Um filme que fala sobre religião, vida e morte de forma natural e corajosa. Melancólico, denso e intenso, sem um grande final feliz ou frases de grande inspirações, seu intuito não é esse, e por isso, o título nacional um tanto quanto equivocado, eles não tentam reecontrar a felicidade, eles tentam conviver com seus dramas, com os problemas, aceitá-los. O longa fala dessa aceitação da vida, dos obstáculos, e dessa vontade que sentimos às vezes de querer jugir, esquecer tudo, entrar pela toca do coelho e viver num mundo mágico, onde a felicidade seja realmente possível. Recomendo.

NOTA: 9


2 comentários:

  1. Concordo plenamente:
    "Uma obra emocionante, que comove sem exageros ou melodramas.."

    Podes ver a minha opinião sobre este filme no meu blogue em

    http://silenciosquefalam.blogspot.com/2011/06/filme-rabbit-hole-2010.html


    Este teu blogue é excelente!!

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  2. Valeu pelo comentário, Miguel! Volte sempre, hehe!

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