segunda-feira, 28 de maio de 2012

Crítica: Toda Forma de Amor (Beginners, 2010)

Vencedor do Oscar e Globo de Ouro 2012 na categoria Melhor Ator Coadjuvante para o veterano Christopher Plummer, "Toda Forma de Amor" é um delicado e sensível filme que narra de forma bastante complexa a inusitada relação de pai e filho e como eles são iniciantes diante de algumas situações da vida. Dirigido pelo artista gráfico Mike Millis, mais conhecido por fazer documentários e curta-metragens, o longa ainda conta com atuações de Ewan McGregor e da belíssima atriz francesa Mélanie Laurent.

por Fernando Labanca

Conhecemos a mente de Oliver (McGregor), e através de uma narração em off, toda a complexidade de seu mundo. No passado, seu pai Hal (Plummer) se assume gay aos setenta e cinco anos de idade, assim que sua esposa falece, depois de anos de casados. Passa a namorar um homem mais novo e se entrega com grande intensidade a este relacionamento. Não muito tempo depois, revela para o filho que tem uma doença terminal. Após a morte de Hal, Oliver, ainda apegado as lembranças do pai, conhece uma jovem atriz, Anna (Laurent), e tenta aos poucos se aproxima dela mesmo não tendo noção de como é amar alguém, pois durante anos se fechou em sua vida e não soube como aproveitá-la e assim, suas recordações, desde pequeno, assistindo de perto o fracassado relacionamento de seus pais até os últimos momentos de Hal, passam a moldá-lo como ser humano, justificando seus medos ao mesmo tempo que o encorajam para viver algo de verdade. 


Lançado diretamente nas locadoras aqui no Brasil, "Toda Forma de Amor" tem muitos elementos que justificam a escolha da distribuidora em não arriscá-lo no cinema, pois é uma obra não muito convencional, pode não agradar o grande público. Entretanto, é nítido a qualidade do filme. Não possui um roteiro linear e apesar desta técnica estar se tornando clichê, aqui ela é bem aproveitada e eleva o nível, feita de forma não confusa, cria um sensível quebra-cabeça onde aos poucos vamos conhecendo a mente do protagonista Oliver e como suas lembranças revelam os porquês de suas atitudes, o medo que ele tem em se envolver com alguém, o fato de ser cético em relação ao amor e como ele tem o dom em afastar aquelas pessoas que ama. É ainda belo o envolvimento que este tem com o pai e como a forma como Hal encarava a vida, doente, mas sem deixar de acreditar, velho, mas sem deixar de se jogar ao amor, sem temer se assumir homossexual, sem temer ser julgado, passa a modificar o modo como Oliver enfrenta a sua. E entre flashbacks, o roteiro também assinado por Millis se mostra consistente, conseguindo construir uma trama sem muitas surpresas, mas repleta de bons momentos. Em um filme que mostra como os seres humanos se sentem iniciantes quando enfim conhecem o amor e como este puro sentimento acaba salvando a vida das personagens.

É bastante nítido também a forte influência do clássico francês "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain", desde a forma como é narrado, mostrando de forma divertida e encantadora o modo como a vida era em cada ano citado por Oliver, revelando de forma nada sutil as características de cada época e cada personagem, onde a narração parece convidar o público a entender aquele mundo. Além dos belos momentos silenciosos onde a trilha sonora parece fazer seu papel, revelando sentimentos e claro, fazendo das cenas ainda mais interessantes, isso porque a trilha sonora minimalista lembra e muito aquela criada por Yann Tiersen em 2002, porém dessa vez foi composta pelo trio Roger Neill, David Palmer e Brian Reitzell e realizam um belo trabalho, sendo este aspecto um dos pontos mais positivos do filme. 

"The Begginers" se torna ainda mais interessante por seu poderoso elenco. Ewan McGregor é um figura que chama a atenção, sua voz conduz com delicadeza toda a trama e seu olhar tão profundo comove sem grandes esforços, tem uma performance notável. A bela Mélanie Laurent não é tão cativante assim, mesmo sendo linda e possuindo um adorável sorriso, por vezes parece fria demais e não é a primeira vez que sinto isso da atriz, ainda assim, parece se encaixar bem em sua personagem e funciona muito bem ao lado de McGregor. E claro, o coadjuvante de ouro, Christopher Plummer, que no auge de sua carreira se joga num personagem difícil e nada menos que merecido seu reconhecimento, é lindo o que o ator realiza aqui, memorável. 

No entanto, "Toda Forma de Amor", apesar dos inúmeros pontos positivos não chega a empolgar. A idéia é boa mas parece insuficiente para preencher os poucos minutos de duração que possui. Há cenas longas, que tem lá seus significados, mas nada que prenda muita a atenção. Além do estranho relacionamento entre Oliver e Anna, por vezes confuso, dificultando a compreensão de determinados conflitos, devido também a ausência de diálogos. E outro ponto que me desagradou um pouco foi o fato de Oliver passar a pixar as ruas, como forma do roteiro dizer que ele finalmente está vivendo sua vida, livre de julgamentos, sem temer consequências, mas acredito que existem maneiras mais interessantes e mais maduras de querer aproveitar a juventude, e nestas cenas ainda temos que acompanhar os patéticos novos amigos de Oliver que de tão bizarros aparentam ter cinco anos de idade. Em suma, não deixa de ser uma obra de qualidade, que consegue comover e encantar pela forma como a trama é guiada, que nos faz afeiçoar pelas personagens bastante humanas, além do fato do diretor ter construído algumas cenas que de tão belas fazem o filme valer a pena, um delírio para os olhos e ouvidos, devido às atuações competentes e diálogos de um roteiro bem escrito e uma trilha sonora muito bem composta e inserida. Recomendo.

NOTA: 7,5




Crítica: O Preço do Amanhã (In Time, 2011)

Andrew Niccol não é um nome muito forte em Hollywood, apesar disso, é um roteirista que já realizou trabalhos notáveis no cinema como "O Show de Truman" (1998) e "O Terminal" (2004). Como diretor trouxe para as telas filmes como "Simone" (2002) e "O Senhor das Armas" (2005). Em 2011, ele retornou como roteirista, produtor e diretor de "O Preço do Amanhã", já criando uma certa expectativa, pois seu nome é sinônimo de originalidade. Pois bem, a verdade é que sua originalidade retorna mais uma vez e o que vemos nesta ficção científica é uma obra inteligente, com sacadas que beiram a genialidade e que não se trata de um remake e nem uma adaptação de algum livro. Estamos numa época em que filmes como este parecem impossíveis de serem criados. Uma raridade.

por Fernando Labanca

Somos apresentados a este mundo futurístico. Onde cientistas descobriram uma forma de destruir o gene do envelhecimento. Todos os seres humanos vivem até os vinte e cinco anos, a partir deste momento, um relógio é ativado no corpo de cada um, é então que as pessoas precisam correr atrás de tempo. O tempo se tornou a nova moeda. O trabalho é pago com tempo, as compras são pagas com tempo. Existem os bancos que o armazenam para futuros empréstimos. Porém, acabou se criando uma intensa desigualdade social, onde os pobres não conseguiam tempo suficiente e os ricos esbanjavam e assim poderiam viver mais.

É neste cenário que Will Salas (Justin Timberlake) acaba perdendo sua mãe (Olivia Wilde), vitima desta desigualdade, que morreu por falta de tempo. Até que ele salva a vida de um milionário (Matt Bomer), que havia armazenado um século e antes deste homem se suicidar, por não mais aguentar viver, entrega todo seu tempo a Will. Com todas essas horas em suas mãos, ele passa a ir atrás de justiça, recuperar o tempo que os pobres jamais poderiam conquistar, porém quando ele percebe que está sendo perseguido pelos Guardiões do Tempo, acusado de matar o tal milionário, ele sequestra a filha de um poderoso magnata, Sylvia (Amanda Seyfried), como forma de se manter vivo. E ela, decidida a viver uma grande aventura, longe das regras da classe alta, passa a auxiliar Will em sua luta pela justiça, enquanto ambos vivem cada dia como se fosse o último, literalmente.


 
"Viva cada dia como se fosse o último". O cinema já nos mostrou este clichê clássico diversas vezes, mas a verdade é que ele nunca fez tanto sentido como neste filme. A intenção da obra é levar esta ideia para as telas de forma literal, onde o ser humano precisa conquistar o tempo a cada dia, caso contrário, ele morre. E assim, o roteiro inteligente de Niccol consegue explorar esta premissa muito bem, principalmente nos primeiros minutos de filme, onde este "novo universo" nos é apresentado. O longa ganha força justamente nesses momentos em que nos introduz a este mundo, nos revela uma nova cultura, uma nova forma de vida e é tudo muito original, muito bem pensado. Entretanto, perde sua força exatamente quando este mundo deixa de ser novidade a nossos olhos, pois é quando o filme sem mais espaço para expor sua criatividade, se revela um filme comum de ação, com vilões e mocinhos e perseguições que parecem não ter fim. A impressão que tive é que eles criaram uma situação incrível, extremamente bem elaborada para usar como cenário de um filme de perseguição sem grandes novidades, é como se o filme merecesse mais, tudo o que ocorre parece pequeno pela ótima premissa que eles desenvolveram no início

"In Time" conta com um elenco não tão poderoso. Justin Timberlake convence em seu papel, mas não surpreende, faz o que já se espera dele. Já Amanda Seyfried parece menor, em comparação com o que a atriz já realizou no cinema, sua performance deixa a desejar, num papel onde sua beleza é a única coisa que parece importar. No restante, nenhum grande destaque, Cillian Murphy fazendo mais uma vez um vilão, a bela Olivia Wilde, que confesso, realizou uma das mais incríveis cenas do filme, quando ela corre aos braços de seu filho, enfim, uma sequência um tanto quanto memorável. Ainda vemos alguns atores conhecidos do público por suas aparições em seriados, como Matt Bomer de "White Collar", Johnny Gallecki, o Leonard de "The Big Bang Theory" e Vincent Kartheiser da série "Mad Men". Enfim, coadjuvantes de luxo que surgem e logo desaparecem e ninguém além de Timberlake tem muito espaço para fazer algo de destaque.

Uma idéia incrível desperdiçada em um mero filme de ação. Sim, ainda temos a boa direção de Andrew Niccol, as sequências ainda são boas e a ação funciona grande parte da obra, boas perseguições que prendem a atenção, auxiliada pela ótima fotografia e com a construção de um cenário bem interessante, ilustrando muito bem este universo apresentado, desde a arquitetura dos prédios ao novo design dos automóveis, além do belíssimo figurino realizado pela vencedora do Oscar, Colleen Atwood (Alice no País das Maravilhas). Entretanto, não deixa de ser só mais um filme de ação, onde a grande idéia lançada no início se perde em função de uma obra para a grande massa, com conflitos fáceis, perseguições vazias, correria, onde no final já nem mais nos lembramos o porquê dos protagonistas estarem fugindo, tudo o que Hollywood gosta de vender. No entanto, eu ainda o recomendo,  por mais que possua seus defeitos, não deixa de ser original, com direito a boas sacadas, e discussões válidas sobre desigualdade social e reflexões sobre a estranha obsessão de algunas pela vida eterna e o que ser humano é capaz de fazer por ela, e no meio de tantos filmes do gênero, esse acaba se destacando por suas grandes idéias. 

NOTA: 7


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Crítica: Os Vingadores (The Avengers, 2012)

Avante, Vingadores!

por Fernando Labanca

Um dos filmes mais aguardados do ano, não só pelos nerds aficionados pelas HQ's, mas pelo público geral que desde a estréia de "Homem de Ferro 2" em 2010 está a espera do tão comentado "Os Vingadores". Filme que reúne alguns dos heróis mais conhecidos, como Homem de Ferro, Thor, Capitão América e Hulk, onde cada um teve seu filme solo dando pistas sobre esta obra, que já é aclamada, não só pelo público, mas pela crítica. É baseado nas HQ's da Marvel, criação de Stan Lee, Jack Kirby e Dick Ayers, nasceu na década de 60, como uma resposta do estúdio para a Liga da Justiça, da DC Comics. 

Com a direção de Joss Whedon, já conhecido pelo mundo nerd, por ter escrito para a série "Buffy- A Caça Vampiros" na década de 90, além de seus roteiros para filmes como "Toy Story" e "Alien: A Ressurreição" e que só teve a oportunidade de seguir na direção em 2005, com o filme "Serenity", lançado diretamente nas locadoras, aqui no Brasil. Portanto, é um cara entendido do assunto, e além de dirigir, escreveu o roteiro ao lado dos próprios criadores da HQ!

Vemos na tela, o encontro desses heróis. São chamados pela SHIELDS, a pedido de Nick Fury (Samuel L.Jackson), que tem como missão reunir esses homens poderosos para salvar a Terra, pois ela está ameaçada com a chegada de Loki (Tom Hiddleston) que tem nas mãos o Tesseract, uma fonte de energia com potencial desconhecido e deseja dominar o mundo. Viúva Negra (Scarlett Johansson), Capitão América (Chris Evans) e Tony Stark (Robert Downey Jr.) são convocados para a missão, porém eles contam com um grande reforço, Bruce (Mark Ruffalo), o Hulk. Mas os problemas familiares continuam quando Thor (Chris Hemsworth) retorna de seu mundo para impedir que seu irmão, Loki continua com seu plano.



A grande sacada de "Os Vingadores" foi ter reunido esses heróis em um só filme. Parecia até algo impossível de se fazer. Mas conseguiram. É um prato cheio para os nerds e para o público que esperava ansiosamente este momento nada menos que épico. E temos o prazer de ver cada herói em cena, pois cada um tem seu espaço dentro da história, alguns são melhores desenvolvidos que outros. Mas no fim das contas, o que acaba valendo a pena mesmo é ver as cenas de ação e aventura, comandadas com capricho por Joss Whedon, como as cenas finais que são de tirar o fôlego, é um deleite vê-los juntos, lutando como uma equipe. Ou até mesmo as pequenas batalhas que acontecem entre eles mesmos, como a interessante sequência da luta entre Thor, Capitão América e Homem de Ferro. Até mesmo Hulk, que teve momentos ruins no cinema, surge melhorado, em boas cenas de ação. O que dizer então de Viúva Negra e sua agilidade em acabar com o inimigo? Os efeitos especiais são de cair o queixo. É tudo muito bem feito e muito bem encaixado nas cenas, acredito que o diretor soube fazer bom proveito da tecnologia e construiu sequências agradáveis aos olhos. Auxiliado ainda pela trilha sonora, nada memorável, mas que faz bem seu papel, composta por Alan Silvestri.

O problema é que a história é simples. Eu diria, simples até demais. Acredito que eles criaram uma propaganda enorme em cima do filme, era de se esperar algo a altura dessa propaganda e infelizmente não aconteceu. Tudo é muito simples. O vilão que quer dominar o mundo e os heróis que surgem para salvar a Terra e blá bla blá. Acho que já vi isso em muitos filmes e eles nem se preocuparam em criar algo novo ou pelo menos repetir os clichês numa história melhor contada. Até as duas horas de filme nada realmente acontece. Colocam os heróis em cena, fazendo piadas, algumas funcionam, outras não, mas enfim, estão lá a todo tempo, eles discutem como crianças e depois partem para a briga e o filme fica assim até que eles resolver agir na cena que é a final, ótima por sinal, mas numa batalha que não sai de uma avenida. Tudo muito pequeno para um filme de super-herói. Para piorar as personagens são meros fantoches para as batalhas, surgem como personagens desinteressantes, como se o roteirista tivesse pensado "bem, já que todos eles tiveram um filme solo, porque perder tempo criando mais uma história para cada um deles, vamos colocar eles em brigas e o público vai gostar". Pois bem, o público gostou. Mas não acho que só porque é um filme de herói eu não possa esperar uma história interessante e isso não acontece. Os personagens não possuem nada, estão ali para lutar, apenas. Filmes como todos de "X-Men" e "Watchmen" souberam dar espaço para inúmeros heróis e ainda conseguir escrever uma história digna para cada um deles. E é válido citar a belíssima adaptação de Christopher Nolan para Batman, que é um blockbuster, mas que faz o público pensar.

Ainda na história há várias falhas imperdoáveis e um tanto quanto bizarras. Hulk é de fato, um dos personagens mais interessantes desse filme, isso porque é interpretado por Mark Ruffalo, só por isso. Mas o personagem tem suas falhas. Em uma cena ele não consegue controlar o Hulk, sai quebrando tudo e tenta até mesmo matar uma aliada, na outra cena, ele revela seu grande segredo, ele consegue controlar o monstro que há nele, incrível, não? E o poder patético de Loki em controlar as pessoas, deixando elas a seu favor, mas que são libertas dessa "maldição" com um golpe na cabeça e do nada mudam de lado, como aconteceu com o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner). Loki, por sua vez, perde a força que teve no filme "Thor", se torna um vilão vazio, e graças ao roteiro participa de cenas lamentáveis como quando ele faz as pessoas se ajoelharem para ele. O Homem de Ferro tem toda a atenção voltada para ele, isso porque ele é Robert Downey Jr, pois o personagem não faz nada o filme inteiro, está em cena para mostrar seu humor sarcástico. Por falar nisso, há um humor exagerado no longa, o fazendo perder ainda mais sua credibilidade, piadas atrás de piadas e nenhuma situação é levada realmente a sério. Uma pena. Por outro lado, algumas funcionam perfeitamente e caem bem a determinadas cenas.

Quanto as atuações, piloto automático total. Robert Downey Jr interpreta Robert Downey Jr. Chris Evans até se esforça, mas infelizmente seu personagem tem pouco espaço. Chris Hemsworth só aparece lutando e gritando com alguém, fraco e seu Thor parece inútil no meio dos heróis. Scarlett Johansson está linda como sempre, seduz mesmo quando não tem a intenção, mas não se esforça, mas está bonita e é o que parece importar para compor Viúva Negra. Os destaques acabam ficando para Mark Ruffalo, não só por ser o melhor dentre todos os atores, mas por ter conseguido inovar na composição de seu personagem, não repetindo o que outros atores já fizeram. Além dele, Tom Hiddleston se esforça como o vilão Loki e convence. No elenco ainda nomes como Samuel L.Jackson, Jeremy Renner e Stellan Skarsgaard, tirando o último, todos no automático também. Temos ainda Clark Gregg, como o agente Phill, bem em seu papel, representando os fãs dentro do filme. E para minha surpresa um rosto conhecido dentre os nerds que surge sem grande importância na trama, mas é muito bom vê-la em cena, Cobie Smulders, a Robin do seriado "How I Met Your Mother", como a agente Maria Hill.

"Os Vingadores" não vai muito além de um blockbuster com ótimos efeitos visuais e sonoros. Sei que se trata de um produto de massa, mas mesmo assim, ainda procuro inteligência num filme e algo me faça pensar. Não acredito que só porque seja um blockbuster preciso desligar meu cerébro e aceitar tudo o que venha a minha frente. Sei também que faço parte de uma minoria, logo que muitos o estão aclamando e dizendo que este é "o melhor filme de herói de todos os tempos". Não acredito nisso, pelo contrário, para conquistar este termo, o filme precisa no mínimo conseguir contar uma história decente e este esteve bem longe disso. Em suma, uma obra que diverte e que vale a pena levar os amigos para o cinema num final de semana, pois dentro de sua proposta até que funciona, consegue entreter, mas não vai além disso, não vai além do que se espera dele. Entretenimento puro, que não exige reciocínio, muito barulho e quase nada de conteúdo!

NOTA: 6,5 


[Crítica: Homem de Ferro2]
[Crítica: Thor]
[Crítica: Capitão América]


sexta-feira, 4 de maio de 2012

Crítica: American Pie: O Reencontro (American Pie Reunion, 2012)

Poucos filmes merecem o termo "marcou uma geração". Este feito, "American Pie", famoso por seu besteirol americano, conseguiu. A obra que é um retrato irônico dos jovens da década de 90 prova em seu quarto filme oficial que o tempo não o fez parecer uma obra esquecível, muito pelo contrário. Parece que o tempo fez bem para Jim e seus companheiros. Hoje, vendo a quarta parte, o longa carrega em si um delicioso clima nostálgico e é engraçado como, devido ao esperto e bem elaborado roteiro, "O Reencontro" se mostra não só o capítulo mais maduro de todos os filmes, mas é aquele que parece fazer mais sentido, mesmo retratando uma vida passada. Uma sequência de qualidade que homenageia toda uma geração, que faz o que seria impossível: prova ser o besteirol mais importante dos últimos anos.

por Fernando Labanca

Treze anos após o término do colégio, a classe de 99 se reúne para celebrar aquele tempo passado e se reencontrar com os velhos amigos. Jim (Jason Biggs), casado com Michelle (Alysson Hanigan) e agora com um pequeno filho retornam para o final de semana épico, fazendo a velha equipe se unir novamente. Kevin (Thomas Ian Nicholas) que também está casado, Oz (Chris Klein) que se tornou um famoso âncora de programa esportivo, além de ter participado do "Dancing With Stars" e Finch (Eddie Kaye Thomas) que passou anos se aventurando pelo mundo. Decididos a não chamarem Stiffler (Seann William Scott), o plano logo de início dá errado quando o destino os coloca juntos outra vez. Com a presença do amigo, eles acabam fazendo justamente o que não queriam, se meter em encrencas.

Entretanto, por de trás deste reencontro, cada um tenta conviver com seus próprios conflitos. Jim e Michelle que já não mantém uma relação sexual tão ativa quanto antes, Kevin que se depara com sentimentos antigos ao rever Vicky (Tara Reid), sua primeira grande paixão, assim como Oz que se reencontra com Heather (Mena Suvari). E Stifler que acaba aprendendo a mais dura das lições, os tempos do colégio passaram, ele já não é o maioral, as coisas mudaram, os anos dourados ficaram, infelizmente, para trás. E juntos percebem que a vida os guiou para rumos bem diferentes do que haviam planejado no passado. 


No cinema existem sequências e sequências. Existem aquelas que são feitas por dinheiro e existem aquelas que possuem um intuito, um propósito. "American Pie: O Reencontro", sem sombra de dúvida, sem encaixa no segundo grupo. Como disse anteriormente, os anos fizeram bem para a série de filmes, é interessante ver como o longa faz sentido nos dias de hoje, o que nos leva a um ponto ainda mais interessante: American Pie de 1999 foi um filme vanguardista, que pensou além de seu tempo. Não estou dizendo que os adolescentes retratados no filme são perfeitamente baseados na realidade, pois não são, são uma versão bem distorcida e cômica, mas que dentro de sua proposta, sempre funcionou muito bem. Neste quarto filme, os roteiristas conseguiram fazer toda a saga fazer sentido, o que antes eram só jovens atrás de sexo, hoje é um filme de comédia inteligente, com conceito.

Quando digo vanguardista, me refiro principalmente a inserção de uma tecnologia que na época era rara, os vídeos no youtube, as redes sociais, a velocidade da informação. O roteiro brilhantemente, ainda aproveita e faz boas piadas sobre essa nova geração. O que há de diferente no mundo de hoje, como os telefones celulares que na época não eram tão comuns entre os jovens. E para isso, eles colocam a turma de Jim em oposição a essa nova geração, é então que a diferença fica bem clara e passamos a analisar o quanto as coisas mudaram. É hilário ver Stifler ter que apelar para a saga Crepúsculo para conseguir transar e o quanto seu tipo de humor não faz o menor sentido entre as pessoas desta época. O filme ainda é recheado de boas sacadas, piadas nada inocentes assim como a série se tornou popular, ainda apelando para cenas de nudez, quase todas desnecessárias, mas que fazem parte do pacote. E apesar de retratar os jovens da década de 90, os roteiristas elaboram um universo capaz de agradar os iniciantes em "American Pie", mas é claro, aqueles que acompanharam os episódios anteriores compreenderão muito mais as piadas e acharão muito mais graça na trama.

A intenção de "O Reencontro" é justamente nos trazer um clima nostálgico. Ver aqueles personagens na tela é nos lembrar de como o tempo passou e é quase inevitável não sentir um pontada no coração. A cada personagem antigo que surge é uma lembrança nova. O filme tem este sentimento causado no público como seu maior triunfo. E a trama é sobre essas pessoas que um dia foram adolescentes, mas que cresceram, tiveram que crescer, arranjar um emprego, amadurecer, cuidar de uma família, encarar as responsabilidades da vida adulta e perceber que não somos aquilo que esperávamos, não seguimos os passos que acreditávamos em nossa juventude que iríamos seguir. E quando estes personagens se veem de volta no tempo é quando se deparam com os sonhos que não foram realizados, erros do passado que não foram corregidos, histórias que não foram devidamente terminadas. E é justamente por esses elementos que a quarta parte marca o momento mais maduro de "American Pie", mais do que isso, consegue se manter no mesmo nível que "O Casamento" e assim, sendo ao lado do terceiro filme, o melhor. Por isso que o tempo fez bem para a história, porque ela foi sendo aperfeiçoada.

Outra grande graça deste novo filme foi ter conseguido reunir todo elenco original. Mesmo que alguns apareçam em pontas especiais, a experiência de revê-los já vale o ingresso. E assim como a própria história, as personagens ganharam uma versão melhorada. Jason Biggs faz o Jim ser uma personagem patética, mas ainda assim engraçado e ao lado de Alysson Hanigan provam que ainda existe uma química adorável entre a dupla. A dupla Chris Klein e Mena Suvari também ganham bom destaque, não só pela trama mas por serem bons atores. Até mesmo Eugene Levy, que faz o pai de Jim, está melhor e mais engraçado. Entretanto, quem acaba se destacando ainda mais é Seann William Scott, que trás mais uma vez, uma atuação memorável, e faz de Stifler um personagem único, brilhante. Ainda vemos aqueles coadjuvantes clássicos, como a mãe do Stifler (Jennifer Coolidge), Nadia (Shannon Elizabeth), Jessica (Natasha Lyonne) e Sherman (Chris Owen), o Sherminator.

"American Pie: O Reencontro" tem seus erros. O excesso de piadas relacionadas a sexo, que poderão deixar muitas pessoas constrangidas, somadas a nudez que surge gratuitamente. E as cenas que parecem não ter muita coerência, uma junção de situações que são jogadas na tela sem a intenção de criar algo lógico. Mas é isso, um besteirol, que tem como único intuito entreter. Mas diferente de muitos filmes do gênero, não é do tipo, desligue o cérebro e vá em frente. É uma obra que respeita o público seleto que o admira, uma comédia de qualidade que ainda possui seus doces momentos de romance. Não recomendo para todos, é preciso gostar e não ligar para o que é politicamente incorreto. Para aqueles que vivenciaram a década de 90 e sentem falta dela!


NOTA: 8,5