sábado, 18 de maio de 2013

Crítica: Inquietos (Restless, 2011)

Gus Van Sant é definitivamente um diretor imprevisível, enquanto consegue realizar obras como o polêmico "Elefante" ou o emocionante "Gênio Indomável", também é capaz de surgir na mídia mostrando seu grande esforço para ser o diretor da adaptação "50 Tons de Cinza". Realmente não dá para entender. E mesmo provando em alguns projetos sua ousadia como profissional, também é capaz de surgir com obras menores, sem criatividade e sem emoção, o que é o caso deste "Inquietos", tão distante da grande filmografia que ele realizou ao longo de sua carreira.

por Fernando Labanca

Conhecemos Enoch (Henry Hopper), um desajustado e solitário jovem, que vive com sua tia após perder seus pais em um acidente de carro, ainda quando era criança, e tem como melhor amigo, um fantasma de um piloto japonês, morto na Segunda Guerra Mundial. O acidente em sua infância foi trágico e ele precisou ficar um período em coma, o que o impediu de ver o velório de seus pais. Como compensação, ele cria uma rotina de assistir funerais de desconhecidos, e em uma dessas "visitas", ele conhece Annabel (Mia Wasikowska), uma garota tão desajustada quanto ele, com quem inicia uma relação amorosa. Porém, quando ela descobre que possui apenas três meses de vida, devido a um câncer, Enoch passa a ser parte essencial dessa sua nova descoberta, a morte. 


"Inquietos" mostra a morte de um ponto de vista diferente, sem ser melancólico, sem necessariamente ser o fim. A morte como parte da vida, como parte de qualquer trajetória, mais do que isso, a morte como recomeço. O personagem Enoch tem uma estranha relação com ela, perdeu os pais ainda pequeno e seu melhor amigo é um fantasma (Ok, essa última parte a gente ignora!), vai a funerais e se veste como alguém de outra época, um ser que definitivamente não vê muito sentido na vida, mas que entendeu e aceitou seu rumo. Annabel em nenhum momento se choca com sua dura realidade, mesmo quando finalmente encontra um motivo para querer viver descobre que pouco poderá desfrutar de toda sua felicidade. Felicidade que poderá ser resumida em um curto período de sua existência, no entanto, que já terá valido sua vida inteira. E ambos, juntos, enfrentam essa passagem, Annabel de entender a morte, de se desprender daquilo que a completa e Enoch de compreender a vida, mesmo quando aquilo que enfim lhe deu um sentido está prestes a partir.

Há muita beleza nesta obra, isso é inegável, o diretor Gus Van Sant entrega à morte, poesia. Figurinos, trilha sonora e fotografia, tudo em perfeito estado, prontos para entregar ao público uma obra para se lembrar. No entanto, isso não acontece e é no roteiro que se encontra sua grande falha. Escrito por alguém que provavelmente entende muito de morte, mas pouco da vida, onde seus conflitos e personagens parecem ter sido tirados de outro filme, não do mundo real. É tudo tão alienado e artificial a maneira como o casal vive e como tudo é explorado na trama, Annabel e Enoch que nasceram de um protótipo já criado para "jovens desajustados", com direito a nomes estranhos, conflitos familiares e manias bizarras como ler sobre insetos e Darwin e jogar pedras em trem (??), onde no fundo não passam de jovens normais, bonitos, com corte de cabelo moderno e um estilista de primeira. O roteiro tenta nos convencer de que eles não se encaixam na sociedade, mas a construção dos personagens é tão rasa, tão pobre que ficou bem difícil embarcar nesta jornada e acreditar em seus dramas.

Enoch e Annabel são os típicos personagens de filme "indie", são salvos, porém, pelas atuações, principalmente de Mia Wasikowska, que encanta facilmente e prova, mais uma vez, seu grande talento, apesar de jovem. Já Henry Hopper não decepciona, mas também não surpreende. "Inquietos" traz uma direção de Gus Van Sant morno, que não ousa, em um filme que possui uma boa premissa mas desperdiça o restante da trama com uma abordagem já retratada em outras obras. Confesso que tudo é muito bonito e bem feito, não deixa de ser adorável. No entanto, ironicamente, neste filme que fala sobre a morte, a única coisa que lhe faltou foi vida própria, resultando em algo sem personalidade, insosso. Fácil de gostar, fácil de esquecer.

NOTA: 7



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe um comentário #NuncaTePediNada