sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Crítica: Dublê de Anjo (The Fall, 2006)

Produzido por ninguém mais que Spike Jonze e David Fincher, e lançado diretamente nas locadoras aqui no Brasil, “Dublê de Anjo” é uma verdadeira obra de arte dirigida pelo indiano Tarsem Singh, que é um grande manipulador de imagens, seja de um jeito positivo (A Cela, 2002) ou de um jeito negativo (Imortais, 2012), a verdade é que seus filmes causam certo impacto e são capazes de produzir sensações diversas. E durante quatro anos, Tarsem procurou em mais de vinte países as locações perfeitas para seu mais ambicioso projeto, que por fim, acabou sendo ignorado pelo público, sorte e privilégio daquele que o encontra, pois com seu visual irretocável e sua tocante história, vemos um filme milagroso, difícil de ser esquecido.

Por Fernando Labanca

Los Angeles, anos 20. Roy (Lee Pace) é um dublê de cinema que sofreu um acidente e por isso se encontra em coma em um hospital, é onde conhece a pequena Alexandria (Cantinca Untaro) que com seu braço quebrado passa a visita-lo com frequência para que ele conte suas mirabolantes histórias. Ele começa a contar uma jornada épica, sobre cinco heróis míticos que possuem apenas uma coisa em comum, o desejo de vingança do Governador Odious. Para continuar contando, Roy decide fazer uma troca com a menina, pedindo que ela o levasse um remédio, comprimidos que o fariam morrer, e sem que ela soubesse do efeito de tudo isso, Alexandria vai tentando, através de sua história, reencontrar a luz que faltava no dublê, que tão repleto de amargura e ressentimentos já não é mais capaz descrever um final feliz.


Numa época onde o cinema somente é capaz de nos mostrar um universo fantasioso através de efeitos especiais, “The Fall” vem justamente para quebrar isso, e através do esforço e nítido talento de Tarsem Singh, vemos o que para muitos seria impossível, a criação de um universo “inexistente” através de figurinos, maquiagem, fotografia e locações, sem qualquer manipulação ou inserção de efeitos. E apesar de haver na trama essa separação de ficção/realidade, nos chocamos quando nos damos conta de que tudo é real, até mesmo aquilo que o filme sugere ser fantasioso. Cenários que espantam por sua beleza, que causam impacto pela cores saturadas, que nos faz admirar cada sequência, um visual deslumbrante que diferente de qualquer outro filme já feito, espanta por ser natural não por ter um chroma key bem aplicado. E Tarsem consegue, e merece respeito por isso, trabalhar bem o que tem em mãos, construindo uma belíssima e rara obra de arte, unindo tudo como um sonho louco, que dificilmente esquecemos.

É interessantíssimo o jogo que há entre o roteiro e seu visual, havendo sempre um choque entre realidade e fantasia, que ao decorrer da trama se fundem. Se aqui, há uma nova e diferenciada construção de um mundo irreal, ou seja, através da beleza natural das coisas, há também o paralelo que o roteiro faz com o cinema daquela época, preto e branco e mudo, mostrado ao seu final, que por ironia, a menina Alexandria que revela nunca ter visto um filme em sua vida, imagina toda aquela história muito distante do que seria o cinema ali, repleto de cores, o que acaba justificando também o não uso de efeitos. Além disso, a menina, em sua imaginação, acaba inserindo personagens que conhece da vida real para sua história, que aliás, chega um certo ponto que a aventura deixa de ser apenas de Roy, ela começa a manipular também, e assim passa a buscar a vida que o dublê ignorou, sem saber que tudo não passa de um jogo criado por ele para se suicidar. Este encontro dos dois é belo, e quanto mais sua fantasia criada se funde com a realidade vivida por eles no hospital, mais fragilizado ele fica e aos poucos vai sendo salvo pela inocência daquela criança. São nesses pontos que vejo a genialidade por trás desta obra, que provavelmente ainda encontrarei outros detalhes mesmo depois de já ter escrito esta resenha, pois há muito o que ver, analisar e admirar em “The Fall”, como eu disse anteriormente, é como um sonho, só quem viu e vivenciou aquilo entenderá, palavras não são suficientes para descrever a loucura e beleza deste filme.

Outro grande mérito da obra é a naturalidade que há entre Roy e Alexandria, acredito que sem isso, a trama não seria tão interessante e tão emocionante como foi. A pequena e talentosa Cantinca Untaro trás ainda mais beleza ao filme, a maneira como se expressa e conversa nos dá a impressão de que ela não precisou decorar texto, apenas improvisou, uma criança sendo criança, e sua sintonia com Lee Pace é tocante, graças também a excelente atuação dele que emociona com seu amargurado dublê. Um filme forte, comovente, que nos prende com seu visual magnífico e indescritível, e principalmente por sua história, que surpreende e caminha para um final belíssimo. Recomendo.

NOTA: 10









7 comentários:

  1. Mais que um filme, uma obra de arte!

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    1. Concordo...uma obra de arte!

      E valeu pelo comentário!

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  2. Este filme é maravilhoso,dotado de uma sensibilidade infalível e direção de arte surreal!
    Assisti-lo é como tocar a alma.

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  3. Este filme é maravilhoso,dotado de uma sensibilidade infalível e direção de arte surreal!
    Assisti-lo é como tocar a alma.

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  4. Que resenha fantástica! Que orgulho de ler algo tão bem pontuado, observado e sentido, vindo de um filme que merece isso! Parabéns!

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    1. Poxa, muito bom ler um comentário desse também...mto obrigado!!

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  5. A melhor resenha que li! Você é um dos melhores críticos de cinema que já li. Tenho prazer de ler suas críticas. Espero que volte a escrever. Abraços!

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