sexta-feira, 14 de março de 2014

Crítica: Nebraska (2013)

Um dos indicados a Melhor Filme no último Oscar, Nebraska entra para o grupo dos mais surpreendentes, daquele que não esperamos nada e de repente estamos ali, diante de algo tão único, tão difícil de ser esquecido.

por Fernando Labanca

A história é bem simples. Woody (Bruce Dern) é um idoso que certo dia recebe em sua casa um daqueles folhetos de propaganda enganosa, dizendo que ele havia ganhado 1 milhão. Inocente, ele decide ir a pé até a cidade de Lincoln, em Nebraska, para buscar seu "prêmio". Percebendo que a teimosia do pai o impediria de ver que tudo isso é uma grande mentira, o filho mais novo, David (Will Forte) decide embarcar em sua fantasia e levá-lo de carro até o local. Porém, no meio do caminho, após Woody sofrer um pequeno acidente, eles pousam na casa de alguns tios e primos, é então que esses parentes descobrem sobre o dinheiro, despertando a cobiça não só deles, mas do resto dos habitantes daquela pequena cidade.

A verdade é que eu realmente não esperava nada deste filme, até então, apenas "mais um indicado ao Oscar". Dirigido por Alexander Payne, tão bajulado pela Academia há dois anos atrás pelo fraco e superestimado "Os Descendentes". Confesso que ainda assim sempre acreditei em seu talento, já que realizou alguns bons trabalhos como "As Confissões de Schimidt" e o ótimo "Sideways- Entre Umas e Outras". Pois bem, "Nebraska" é, de longe, sua melhor obra. Tive a certeza disso no instante em que comecei a vê-lo e ao seu término, senti que mais do que ver o melhor trabalho deste grande diretor, vi um dos melhores que o Oscar revelou este ano - talvez, nos últimos anos também - um filme marcante, que provavelmente lembrarei daqui muito tempo.


O seu pai sofre de Alzheimer? 
Não, ele apenas acredita em tudo o que as pessoas lhe dizem!

De uma beleza rara, a trama é montada com uma sutiliza e delicadeza fascinante, o desenvolver de cada personagem, os diálogos, o silêncio. Sim, o silêncio. O filme cresce gradualmente, entre risos e momentos de emoção, de momentos corriqueiros que nos faz imergir dentro daquele universo, que nos faz pensar na própria vida. É genial as cenas onde os personagens principais se encontram com seus parentes, aquelas conversas vazias na sala diante da TV. Aquele realismo crú, às vezes amargo, triste, às vezes tão doce. Acredito que pouquíssimos filmes traduziram tão bem o que é estar ao lado da família, como é esta relação, como são as conversas, como as frustrações são reveladas, como este amor, por vezes tão resguardado é transmitido. Me apaixonei. Me apaixonei por cada um desses momentos, momentos que chegam ao público através de diálogos simples, mas extremamente honestos e interpretados com tanta verdade por esses grandes atores. 

"Nebraska" fala de amadurecimento através da inocência quase que infantil de Woody. É sobre envelhecer no mundo de hoje, sobre pessoas que tiveram pouco e pouco esperam do futuro, é sobre este fim amargo, tão sem perspectivas, sem esperanças. Registrado em preto e branco, o filme, definitivamente, ganha muito por isso, as cores, ou a ausência delas, diz muito sobre aquelas vidas. A trilha sonora, composta por Mark Orton, é outro grande acerto, tão sutil mas ao mesmo tempo marcante, engrandecem as cenas, as tornam mais intensas. É, na verdade, um legítimo road movie, que sabe explorar muito bem o que este gênero permite, e este conjunto de acertos, tão bem orquestrados por Payne, tornam esta obra em algo tão especial, tão tocante. 

Os atores entregam performances incrivelmente realistas, nos fazem acreditar em tudo aquilo, em cada palavra, em cada gesto. Bruce Dern, que não teve uma carreira de muitos sucessos, realiza aqui algo que me deixou extremamente fascinado, uma atuação tão bela, sutilmente poderosa, e  que diverte ao lado de June Squibb, que se destaca em cena como a mulher de Woody. Will Forte, conhecido como comediante, também surpreende ao convencer em um papel dramático. Esses três personagens me fizeram rir, aquela risada boba que damos em um almoço divertido num domingo ao lado da família, dá vontade de ir lá e viver aquela vida com eles, mesmo que tão ordinária, mesmo sem grandes reviravoltas e este é o milagre de "Nebraska", levar beleza a estes momentos tão corriqueiros. É nostálgico, ao mesmo tempo em que é intimista. Ri, chorei, ri mais um pouco, ri enquanto chorava. Inteligente, divertido e também muito emocionante ! Para ser apreciado e levado na memória. Recomendo.

NOTA: 10




País de origem: EUA
Duração: 115 minutos
Distribuidor: Sony Pictures
Elenco: Bruce Dern, Will Forte, June Squibb, Bob Odenkirk
Diretor: Alexander Payne
Roteiro: Bob Nelson




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