terça-feira, 11 de março de 2014

Crítica: Trapaça (American Hustle, 2013)

David O. Russell é um diretor que tem ganhado fama nos últimos anos devido às importantes premiações do cinema. Com "O Vencedor", "O Lado Bom da Vida" e agora com "Trapaça", ele coleciona indicações, o que de certa forma, acaba afetando negativamente suas obras, pois ao vê-las é nítido o quão longe elas estão de serem dignas de tais prêmios, ainda que eu admire e muito os dois primeiros filmes. Logo, O. Russell é um cineasta superestimado e este repentino (e injusto) sucesso lhe fez aos poucos perder sua identidade, aqui forjando ser um Martin Scorsese ou um Paul Thomas Anderson, entretanto, sem jamais ter a coragem e competência desses grandes diretores. "Trapaça" é a prova deste seu desequilíbrio, de sua falta de consistência e coerência, de que ele se perdeu em algum lugar para provar não sei o quê. 

por Fernando Labanca

Nos anos 70, o malandro Irving (Christian Bale), juntamente com sua amante e parceira de suas trapaças, Sydney (Amy Adams), é obrigado a trabalhar para o FBI em uma inusitada missão que tem como intuito flagrar ações ilegais de congressistas norte-americanos. Quem lidera essa missão é o agente Richie DiMaso (Bradley Cooper), que logo se apaixona por Sydney, sem jamais desconfiar dos segredos que ela esconde. E neste jogo de mentiras e enganações, Irving ainda precisa lidar com sua esposa, Rosalyn (Jennifer Lawrence), que mesmo distante dos planos poderá pôr tudo a perder.


Se tem algo que David O. Russell é competente é em sua direção de atores, sempre capaz de expor o melhor de seu elenco. E de fato, "Trapaça" é acima de tudo, um filme de atuações. Não conseguimos ver nada além dos atores em cena. A câmera de O. Russell caminha pelos detalhes dos corpos, captando de perto os gestos, as expressões, como forma de nos aproximar desses personagens, vê-los de perto, ver o quão bizarro eles são, o quão absurdas são suas ações. Analisar suas falhas, seja de caráter, seja da barriga fora de forma de Irving, de seu cabelo fake e do decote sensual de Sydney. E há um excesso de elementos, de perucas, maquiagem e figurinos que não nos dão chances de ver outra coisa. Ainda que proposital essa atenção do diretor aos personagens, me pareceu forçado a relação que nasce dos atores com a câmera. Parece que estão a todo instante implorando por atenção, muito mais do que um figurino chamativo, os atores encarnam o "overreacting", com cenas exageradas de surtos, gritos e choros, longe de trazer qualquer verdade ou tentar parecer verossímil, e ainda com direito a várias daquela velha caminhada clichê em câmera lenta, onde os personagens andam em direção à câmera com pose e olhar de "somos fodões"!

Se torna um grande problema apostar nos atores quando não se tem um roteiro sólido, quando não se tem bons personagens e esta é a pior falha de "American Hustle", não há uma base que sustente as boas atuações. Todos os personagens estão perdidos na história, principalmente os coadjuvantes. Richie DiMaso é o ápice da falta de coerência e é nítido o quanto nem Bradley Cooper entendeu o que estava fazendo ali. De homem romântico à policial sádico, do cara gente boa e bem humorado e que às vezes decide ter uns surtos para variar. Não convenceu, ficou ruim, ficou bizarro. Jennifer Lawrence, ainda que talentosa, estava perdida, sua função foi agregar valor no cartaz do filme. Não faz nada de útil, sua personagem é chata e extremamente descartável. Jeremy Renner agrada, entretanto some diante de tanta caricatura com quem contracena. Por fim, os destaques ficam para Amy Adams e Christian Bale, ainda que exagerados em suas performances, provam o quanto são bons, mesmo com um material fraco em mãos, surpreendem. Além de ter personagens mal desenvolvidos, o roteiro também assinado por O. Russell ao lado de Eric Singer, peca ao construir a história, montada de forma confusa e que facilmente desperta o desinteresse por entendê-la. Perde a empolgação nos minutos iniciais e se prolonga até o final lentamente, sem grandes momentos e com reviravoltas pouco convincentes. 

"Trapaça", por fim, ficará lembrado apenas como a grande decepção deste Oscar, que surge como um nome forte entre os indicados, o público chega até ele com sede ao pote, entretanto, esta comédia de David O.Russel tem pouco a oferecer, não faz rir, não empolga, não causa interesse. História cansativa guiada por personagens fracos interpretados por atores completamente deslocados. Me pareceu tudo exageradamente falso, ainda que parte da proposta era essa, entretanto, nada convence. Um jeito falso e pretensioso de querer ser Scorsese, desde seus cortes, sua intenção de querer ser dinâmico, a presença dos atores, enfim, tudo pareceu estar fora do lugar, desequilibrado, sem sintonia. Vale apenas por ver Bale e Adams contracenando e por ouvir as ótimas canções selecionadas para a trilha sonora, que aliás, ajudam a compor muito bem a época retratada. 

NOTA: 6


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País de origem: EUA
Duração: 138 minutos
Distribuidor: Sony Pictures
Elenco: Amy Adams, Christian Bale, Bradley Cooper, Jeremy Renner, Robert DeNiro, Jennifer Lawrence, Jack Huston, Michael Peña, Louis C.K, Alessandro Nivola
Diretor: David O. Russell
Roteiro: David O. Russell, Eric Singer

Um comentário:

  1. Este filme eu realmente gosto, é um dos meus favoritos e http://www.hbomax.tv/ mais informações sobre ela e também informa quando será na TV.

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