sexta-feira, 25 de abril de 2014

Crítica: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2013)

Vencedor do Prêmio da Crítica Internacional no último Festival de Berlim, o filme é baseado no curta de 2010 "Eu Não Quero Voltar Sozinho", dirigido por Daniel Ribeiro, que também assina a direção e roteiro do longa. Se trata de um caso raro no cinema nacional, que sem uma divulgação forte e sem o selo "Globo Filmes", acabou tendo como sua maior publicidade, seu conteúdo, e a curiosidade que foi surgindo no boca-a-boca. Com sua simplicidade e delicadeza, o filme tem tudo para ganhar mais espaço e merece, é um trabalho admirável, sensível e bastante humano.

por Fernando Labanca

A ideia é exatamente a mesma do curta-metragem. A diferença agora é que os personagens são mais velhos (e os atores, obviamente, também) e assim a trama ganha outras nuances, amadurecimento e maior complexidade. Acompanhamos a vida de Leonardo (Guilherme Lobo), um adolescente cego que precisa lidar com a super proteção de seus pais enquanto luta por ganhar mais independência, é onde nasce o desejo de fazer intercâmbio, viajar para longe, ter outra vida. Tem o apoio constante de sua melhor amiga, Giovana (Tess Amorim), com quem sempre relata o que pensa e sente. Porém, tudo muda com a chegada de um novo aluno no colégio em que estudam, Gabriel (Fabio Audi), que acaba despertando novos sentimentos nos dois amigos, principalmente em Leonardo, que acaba conhecendo um pouco mais de si, mais sobre sua sexualidade.


"Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" é aquele tipo de filme extremamente simples mas que que acaba dizendo muito, é de fato, sobre muitas coisas. Não gosto e não quero rotular a obra com apenas "filme com temática homossexual", sim, é também sobre isso, sobre a descoberta, entretanto, ele vai além. A maneira como o roteiro insere seus personagens neste contexto é de uma delicadeza admirável, nos relata este momento de encontro, de descobertas pessoais, de novos desejos, é interessante e bastante original a forma como Daniel Ribeiro expõe a sexualidade dos protagonistas, ele aposta numa abordagem mais intimista, ignora os estereótipos, a descoberta não é exatamente sexual, é uma questão de afeto, de sentimentos, e esta é a beleza da obra. Não deixa de ser, também, sobre a adolescência, sobre os dilemas, as dúvidas, os questionamentos, a busca constante de ser encontrado e de ser compreendido.

O longa chega a ter uma beleza quase que nostálgica. Ver aqueles jovens discutindo sobre o primeiro beijo enquanto reservam um espaço para fazer os trabalhos do colégio, a preguiça em realizar as coisas, as intriguinhas por causa de ciúmes, os acampamentos, as festas, as bebidas. O roteiro parece compreender o que é ser jovem e entrega beleza a tudo isso. É também interessante analisar a diferença entre o curta e este filme, mesmo se tratando de uma mesma ideia, é nítido que souberem trabalhar as possibilidades que o longa oferecia, consegue se aprofundar mais em suas intenções, consegue ser complexo e até mesmo ousado, não consigo enxergar se um é melhor que outro, apenas que se complementam. A direção, por sua vez, parece ter evoluído e isso foi bom, as cenas são belas, mesmo que simples, Daniel Ribeiro soube dar um tratamento mais caprichado. Amadurecimento também é notável nas atuações, Tess Amorim faz de Giovana aquela amiga que provavelmente gostaríamos de ter tido (ou tivemos) no colégio e Guilherme Lobo e Fabio Audi, ainda que limitados, funcionam bem na trama e convencem. O trio tem boa química e faz o filme valer a pena, são críveis, são os adolescentes que existem hoje, são os adolescentes que fomos um dia.

Sua simplicidade, por vezes, acaba revelando suas limitações, como as cenas de Léo com sua família, que parecem fazer parte de um filme caseiro. Não se trata de uma grande produção, e isso não é um desmérito, porém, nem tudo parece funcionar tão bem como cinema. Ainda assim, tenho que admitir que a obra é sobre afeto e é pelo afeto que a obra nos conquista, é difícil dissecar e ser tão crítico quando o que vemos é tão envolvente, tão belo, há sequências que valem o ingresso, diálogos que de tão naturais nos colocam para dentro da trama, e para fechar, tem uma trilha musical das boas. É um caso a se destacar no cenário nacional, por em pauta relações homossexuais ainda é, estranhamente, um tabu para o público brasileiro e "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" é mais do que uma arma contra o preconceito, é um filme que tem o poder de quebrar este tabu, que consegue acima de qualquer coisa, falar sobre amor, o amor em sua forma mais genuína, mais natural. Pude perceber isso apenas verificando a reação das pessoas na sala de cinema em que estava e posso afirmar que há muito tempo não via um público tão envolvido e tão apaixonado por aquilo que via. De fato, é um filme apaixonante, delicado e extremamente prazeroso, ao seu término fica a sensação de algo muito bom aconteceu, como uma lembrança tão intensa que fazemos questão de não esquecer. Difícil não ficar com um sorriso no rosto do começo ao fim. Mais um ponto para o cinema nacional. Recomendo.

NOTA: 8,5





País de origem: Brasil
Duração: 95 minutos
Distribuidor: Vitrine Filmes
Elenco: Guilherme Lobo, Fabio Audi, Tess Amorim
Diretor: Daniel Ribeiro
Roteiro: Daniel Ribeiro

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