quinta-feira, 7 de abril de 2016

Crítica: Brazil - O Filme (Brazil, 1985)

Quando Monty Python encontra "1984".

por Fernando Labanca

Mais um para a sessão "nunca é tarde para ver um clássico" ou "me arrepende de não ter visto isto antes". Sempre o via nas listas de filmes mais bizarros do cinema e apesar de admirar o trabalho de Terry Gilliam (que fora um dos integrantes do Monty Python), sempre o deixei para depois, até que finalmente resolvi me aventurar por esta comédia non-sense. Lançado em 1985, o longa é um dos primeiros trabalhos do ator por trás das câmeras e chegou a concorrer ao Oscar de Melhor Roteiro Original e Direção de Arte.

Comédia sobre um universo distópico, a trama acontece em algum lugar no século XX, em uma sociedade controlada pelo Governo, que entregou todos os poderes para os Serviços Centrais, uma empresa responsável por resolver todos os problemas da população, assegurando com que todos preencham devidamente os formulários e que sejam devidamente vigiados. Para este novo Sistema, informação é vital para a construção de uma sociedade livre e nada poderá fugir de seu controle. Devido a isso, uma série de ataques terroristas começam a surgir, e neste cenário conturbado, vive o pacato Sam Lowry (Jonathan Pryce), que trabalha no Ministério da Informação, cuidando de arquivos. Sua vida muda quando ele descobre que a mulher que invade seus sonhos realmente existe e parte em uma jornada para encontrá-la, e este seu instinto por liberdade só aumenta quando ele conhece Harry Tuttle (Robert De Niro), aquele que resolveu ser responsável por suas próprias ações, sendo um fugitivo, renegando o controle exercido pelo Governo.


É interessante acompanhar a filmografia de Terry Gilliam e perceber algumas semelhanças entre suas obras. Responsável por filmes como "Os 12 Macacos" (1995), "O Mundo Imaginário de Dr.Parnassus" (2009), entre outros, Gilliam se mostra, sempre, fascinado por estes universos fora de órbita, sem muita lógica, ou melhor, com uma lógica própria. A originalidade se vê não somente no roteiro, mas em todas as suas criações, os cenários, locações, objetos, entregando imagens bizarras que causam facilmente uma estranheza naquele que assiste e isso é maravilhoso. Gilliam cria, em "Brazil", novas culturas, novos costumes, nos permite adentrar num mundo novo, repleto de possibilidades. A verdade é que o cinema permite tais devaneios, mas são poucos os cineastas que tem a coragem e ousadia como ele. É curioso como este universo que ele traz, com seu visual cyberpunk, destruído, cinzento, comandado por industrias e máquinas, muito remete aos seus trabalhos posteriores, apesar de serem completamente diferentes, dialogam bem um o com o outro. É fascinante, também, como ele se apropria disso e consegue de forma brilhante falar sobre a realidade, nesta trama repleta de ironias e sátiras muito bem pensadas.

Incrível poder desfrutar desta loucura, do non-sense e apesar de se tratar de uma trama um tanto quanto confusa, o roteiro não se apega aos "porquês" e nem perde tempo com muitas explicações. É sempre bom encontrar esses filmes que trazem ideias tão novas e são tão livres em desenvolvê-las, talvez por não respeitar nenhum lógica, "Brazil" é uma daquelas obras jamais compreendidas, muitas vezes até esquecidas, mesmo que tenha ganhado o termo "cult" por seus admiradores. Me surpreendi não só por estas liberdades narrativas, mas pelo humor, a verdade é que mesmo que Gilliam tenha saído de um grupo de comediantes, não me lembro de ter visto um texto seu tão hilário como este, é inesperadamente engraçado e vemos uma sequência divertidíssima de momentos "wtf?", tão expressivos e surreais quanto um desenho animado. O protagonista, por sua vez, é muito bem defendido por Jonathan Pryce, que entrega toda a idiotice e seriedade necessária para compor este grande personagem, assim como os excelentes coadjuvantes, com destaques para Robert De Niro e Ian Holm.

E no meio dessa insanidade proposta por "Brazil", vi nosso mundo, vi o Brasil, inclusive. Sempre me questionei sobre o quão chato, às vezes, é se tornar adulto, e aquilo que mais me entristece e me cansa são os formulários, são as novas siglas para as novas leis e novos impostos, é a burocracia de um "Sistema" que parece nos impedir de conquistar qualquer coisa, que se esforça e se dedica diariamente para que nosso caminho seja mais árduo, mais impossível. Como o próprio filme diz, não se pode fazer nada sem um formulário. E não podemos. Ou seja, por trás das cores, da aventura, da ilusão, do humor que vemos ali, o longa traz também uma sensação de vazio, de descontentamento, não só por seu final, mas por sentirmos que tudo aquilo é sobre nós. É sobre ser cidadão e não poder ser livre, é sobre ser livre para discordar de tudo, não para desobedecer, não para fugir. É sobre nós sofrendo a pressão devido os "bugs" do Sistema. Por isso a comparação com a obra de George Orwell e seu universo distópico que entende a busca pela verdade como um ato revolucionário. E quanto ao "Brazil" do título, vejo como se os personagens sonhassem com um mundo ideal, distante dali, paradisíaco, colorido, o local onde a música que ouvem insistentemente, Aquarela do Brasil, habita, o lugar onde poderiam ser, verdadeiramente, livres.

NOTA: 9





País de origem: Reino Unido
Duração: 132 minutos
Diretor: Terry Gilliam
Roteiro: Terry Gilliam, Tom Stoppard, Charles McKeown
Elenco: Jonathan Pryce, Robert De Niro, Kim Greist, Ian Holm, Bob Hoskins, Jim Broadbent


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