quinta-feira, 12 de maio de 2016

Crítica: Paris, Texas (1984)

Algumas obras são atemporais e valem a descoberta, ainda que muitos anos depois. Vencedor do prêmio de Melhor Filme no Festival de Cannes, "Paris, Texas" foi lançado em 1984 e dirigido por Wim Wenders. Simplesmente fascinante, temos aqui uma viagem profunda sobre desilusões amorosas e incertezas da vida.

por Fernando Labanca

Comecei a vê-lo com um certo desinteresse, sonolento em uma tarde de domingo, após longas passadas pelo catálogo da Netflix. Já nos primeiros minutos, porém, percebi que estava diante de algo que merecia mais atenção, havia um tipo de cinema primoroso sendo exibido a minha frente. Seu belo visual, sua atmosfera tranquila e seus interessantes personagens me fizeram despertar. A trama gira em torno de Travis (Harry Dean Stanton), que após desaparecer por mais de quatro anos é reencontrado em uma região desértica do Texas, sofrendo de uma recente amnésia. Resgatado pelo irmão, ele é levado para sua casa em Los Angeles, onde encontra com Hunter, seu pequeno filho que também fora abandonado por sua mãe Jane (Nastassja Kinski), e agora vive com seus tios. Compreendendo aos poucos sua realidade, Travis resolve traçar uma viagem ao lado do filho para tentar recuperar esta relação perdida e reencontrar com Jane, sua antiga paixão que os abandonou e deixou toda sua vida para trás.


"Paris, Texas" é um drama instigante, me vi preso em sua história, curioso sobre seu desenvolver, curioso sobre o passado de seus personagens e como tudo terminaria. É bem interessante as relações que vão sendo construídas, são relações delicadas e muito humanas, deste homem que não sabe como ser pai mas que encontra na ternura de seu menino a inspiração para ser. Da cunhada de Travis, que passa a cuidar de Hunter como sendo seu filho após todos o abandonarem e teme que isto acabe. De Hunter, que tão novo, esqueceu o que era ter aquele misterioso homem como pai e vê Jane apenas como um fantasma do passado, mas que encontra nos vídeos caseiros, nos registros do que um dia foi sua vida, a vontade de descobrir como seria sua família. É muito complexo, também, a história de Travis e Jane, nunca conseguimos compreender exatamente o que de fato os levou a seguir a vida como seguiram, como lidaram com o abandono, com os rompimentos, como tiveram a coragem de dizer adeus a tudo aquilo que poderia ser a felicidade. Roteirizado pelo ator Sam Shepard, é brilhante como o filme não perde tempo com julgamentos, ainda mais em uma época onde os papéis do homem e da mulher eram tão definidos pela sociedade, porque no fundo acredito que "Paris, Texas" seja um pouco sobre isso, sobre essa fuga, sobre não aceitar ser aquilo que a história nos programou para ser, sobre encontrar esta liberdade pessoal.



"E agora eu tenho medo, medo de ir embora outra vez. 
Medo do que poderei encontrar. Mas o que mais temo é não enfrentar este medo. 
Eu te amo, Hunter. Eu te amo mais do que minha própria vida."



O visual da obra é outro detalhe que chama e muito a atenção, parece existir uma consciência muito grande sobre como cada elemento deve aparecer na tela, seus enquadramentos são belíssimos e a incrível direção de Wim Wenders só deixa esta experiência ainda mais fascinante de acompanhar. Robby Müller, diretor de fotografia, também realiza um trabalho notável, com suas cores fortes há uma junção interessante entre a calmaria e vazio de um deserto com o neon e o excesso de informação visual de uma cidade grande. E este embate ilustra bem a posição em que estão seus personagens, logo que vemos um exato recorte de sua vidas, no momento em que estão divididos entre dois pontos, entre o local que estão e onde querem estar. O elenco é poderoso, Harry Dean Stanton faz de Travis um ser tão confuso, tão complexo, ao mesmo tempo em que é tão adorável, tão amigável, cativante, ele consegue dizer muito com apenas um olhar, sem precisar dizer nada. E Nastassja Kinski se eterniza na história do cinema com sua composição, sua imagem é tão forte e sua presença tão marcante que quando a vi, senti que já a conhecia. O momento do encontro dos dois é nada menos que épico, em uma sequência tão pura, original e com diálogos fantásticos, definitivamente alcançando o grande ápice da obra.

Por fim, quando "Paris, Texas" terminou, pensei comigo mesmo: preciso escrever sobre este filme. Foi difícil entender a razão pelo meu total apego à obra, mas algo aconteceu, me senti ligado à ela. É mais do que um clássico, mais do que uma técnica primorosa, mais do que a fotografia e a genial direção de Wenders. "Paris, Texas" merece ser encontrado por tudo o que diz, pela forma como diz, por ser tão humano, tão sincero e justamente por isso, tão apaixonante. Travis, talvez, carregue um pouco de todos nós, com esta sua constante sensação de não fazer parte, de precisar partir para se encontrar, nesta sua coragem de abandonar e no seu medo de ter que ficar. Porque aceitar nosso lugar na vida pode ser apavorante, é destruir as possibilidades do depois. O passado pode ser incurável, mas o futuro, quando não se sabe o que encontrar, pode ser libertador, pode ser a salvação.

NOTA: 9,5




País de origem: Alemanha, EUA, França, Reino Unido
Duração: 147 minutos
Diretor: Wim Wenders
Roteiro: Sam Shepard
Elenco: Harry Dean Stanton, Nastassja Kinski, Hunter Carson





2 comentários:

  1. Caramba, vc conseguiu descrever super bem o que o espectador sente ao assister esse filme. Obrigada! Quando alguém me perguntar porque gosto tanto do filme Paris, Texas, enviarei o link da sua postagem. Parabéns!

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    1. Sorriso no rosto lendo esse comentário!! Muito obrigado, Nayane...fiquei feliz por ter conseguido me expressar (e não é muito fácil falar desse filme) e por vc ter gostado! E pode mandar o link sim haha :D

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