segunda-feira, 9 de maio de 2016

Crítica: Love (2015)

Tendo sua primeira exibição no último Festival de Cannes, no qual foi apresentado fora da competição, "Love" marca o retorno do sempre polêmico diretor Gaspar Noé que vem não só para mostrar seu primeiro filme 3D, mas para chocar a família tradicional, filmando longas sequências com sexo explícito. Para alguns, pornografia com história, para o próprio diretor: "Uma história de amor por um ponto de vista sexual". Cada um verá da sua forma, mas algo é inegável...trata-se de uma experiência impactante e única.

por Fernando Labanca

Provavelmente muitos chegarão até a obra pelas cenas de sexo, mas sim, existe uma história sendo contada ali. Somos apresentados ao mundo de Murphy (Karl Glusman), que narra o tédio e o descontentamento de sua rotina ao lado de sua mulher e seu pequeno filho. Até que uma inesperada ligação o abala, a mãe de sua ex-namorada Electra (Aomi Muyock), liga dizendo que ela está desaparecida há meses e ninguém mais tem notícias. A partir da dúvida sobre o que aconteceu com aquela que tanto amou, Murphy se joga numa crise nostálgica, relembrando tudo o que viveu ao lado dela, procurando sua vida nas lembranças, nas discussões, na paixão adolescente, nos erros cometidos, na relação carnal que os unia.


"A vida é aquilo que você faz dela. Serei bom, como um sonho. Serei verdadeiro."


Desde que assisti "Irreversível" (2002), sempre vi Gaspar Noé como um diretor a se prestar atenção. O lançamento de "Love" causou um certo furor na mídia, tanto pelo trailer e comentários sobre as polêmicas sequências de sexo, como pelas artes de divulgação. Não me interessei tanto por medo de ver o novo "Ninfomaníaca", que prometeu tanta ousadia e Lars Von Trier conseguiu, no mínimo, fazer seu pior filme. Não existe muitas relações entre as obras a não ser: chocar. Por fim, não consegui ver esse apelo sexual do longa como algo gratuito ou ofensivo, ainda que nada disso o impede de ofender os mais conservadores, é preciso estar preparado e saber o que está por vir. Acredito que Noé tenha sido extremamente cuidadoso com tudo, ele causa impacto não pela forma como é mostrado mas por mostrar aquilo que o cinema tanto evita, por revelar a intimidade de um casal sem pudores, sem restrições ou julgamentos. É cru, é honesto e justamente por isso, se torna um filme romântico.

Me surpreendi com tudo o que vi, logo que minhas expectativas eram baixas. Por trás da ousadia, vi uma obra melancólica, que explora o caos da mente do protagonista, este ser escroto que pouco se importa com aqueles ao seu redor. Sua busca pelas lembranças, por encontrar nos fantasmas do passado uma razão para viver, por encontrar os resquícios da mulher que amou e sentiu ser amado, seu medo de nunca mais encontrá-la e como consequência, não mais encontrar a felicidade. "Love" revela o amor quase como uma doença, que destrói, que corrompe mas que é necessária ao ser. Por outro lado, as atuações de seu elenco enfraquecem todo este discurso, já que não há nenhum ator profissional ali em cena. Perde nas interpretações, mas volta a ganhar pela belíssima direção de Gaspar Noé, que faz um trabalho admirável, enaltecido pela fantástica fotografia, com seus enquadramentos e cores e pela interessante montagem. É fascinante também toda a composição da obra, como as sequências vão se somando e o fato de não seguir uma linha cronológica correta, o torna ainda mais instigante, mais hipnotizante.

Há algo de metalinguístico em "Love", onde o protagonista Murphy, aspirante cineasta, sonha em realizar um filme em que amor e sexo coexistem, a criação da "sexualidade sentimental" como ele mesmo diz. Ainda há algumas coincidências tolas, como o ex de Electra se chamar Noé e o filho do protagonista de chamar Gaspar e Murphy ser o nome da mãe do diretor. Sim, nem todas as escolhas são as melhores e há muitas escolhas questionáveis em "Love", mas para minha grande surpresa, vejo que o longa acertou bem mais do que errou, vi uma obra corajosa e inesperadamente romântica, poética, uma experiência única, marcante e que não deixa ninguém ileso. E além de suas intenções, vi um filme com um visual poderoso, cinematograficamente falando, impecável.

NOTA: 8



País de origem: França, EUA
Duração: 130 minutos
Distribuidor: Imovision
Diretor: Gaspar Noé
Roteiro: Gaspar Noé
Elenco: Karl Glusman, Aomi Muyock, Klara Kristin



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