quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Crítica: Demônio de Neon (The Neon Demon, 2016)

O diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn chamou a atenção dos críticos com "Drive" (2011), sua obra mais prestigiada, nascendo ali uma expectativa muito grande para seu próximo projeto. No entanto, com a recepção bastante negativa de "Apenas Deus Perdoa" (2013), seu segundo longa-metragem lançado em grandes Festivais, deixou de ser aquele profissional aclamado por todos, ainda que sua obra chamasse a atenção por sua belíssima estética, onde entrega uma forte assinatura. "Demônio de Neon" traz consigo este peso. Seria ele realmente um diretor promissor ou apenas um profissional perfeccionista preocupado em manter uma identidade forjada? Vaiado no último Festival de Cannes, NWR tornou-se quase que uma persona non grata após a exibição de seu filme, perdendo a confiança dos críticos. Cabe agora, esperar a reação do público, que sendo aprovado ou não, sempre haverá aquela curiosidade sobre seus próximos trabalhos.

por Fernando Labanca


"Demônio de Neon" explora o universo da moda de forma excêntrica e digamos, bastante intrigante. Acompanhamos a jornada de Jesse (Elle Fanning), jovem que tenta seguir carreira de modelo assim que chega a Los Angeles, mas que precisa enfrentar alguns obstáculos para conquistar seu devido lugar. Ainda que coloque em cena discussões interessantes sobre padrões de beleza e o quão vazio pode se tornar esta procura, o longa se mostra mais interessado no terror, na tensão existente em seus ambientes e situações desconfortáveis, trazendo, assim, referências à clássicos do gênero como "Suspiria" (1977) de Dario Argento, desde suas cores à toda sua composição. É curioso como o horror e a tensão vem do impacto de suas sequências, do visual futurista que causa uma constante sensação de desproteção, de que há sempre algo não revelado. O caos camuflado de uma beleza ameaçadora. Repetindo sua parceria com o diretor, o músico Cliff Martinez acentua essas impressões em sua interessante trilha. Já a fotografia surge como o grande espetáculo aqui. Seus tons fortes e sua iluminação em neon tornam o visual o mais atrativo recurso da obra, que hipnotiza e a torna em um produto fascinante de assistir, que instiga em seus silêncios e nos deixa tensos em cada um de seus belos instantes. É então que entra algumas boas sacadas de NWR, que prova ser muito consciente sobre cada construção, sobre a força de cada elemento em cena, desde sua montagem à forma de suas imagens, mostrando que até mesmo a geometria pode afetar a maneira como sentimos e interpretamos suas mensagens.

Poderia ser genial se não fosse o grande esforço de toda a equipe em por tudo a perder. "Demônio de Neon" acaba sendo uma aula sobre como destruir uma grande ideia e sobre como um final mal elaborado tem a capacidade de mudar nossa visão sobre todo o resto do filme, logo que é nele que enfim compreendemos o quão gratuito ele foi, o quão sem nexo e sem propósito toda sua bizarrice foi. É o famoso chocar por chocar. Por um tempo até adentramos ao seu universo, somos persuadidos e convencidos de que há algo sendo dito ali, mas não há. Seus últimos vinte minutos entram para um dos piores momentos do cinema neste ano. É de mal gosto e entre sequências vazias que envolvem necrofilia, canibalismo e outras escolhas duvidosas, a obra se perde. E ao seu fim, além da grande decepção, quando começamos a digerir o que nos foi mostrado, seus erros, enfim, se tornam evidentes. Se a participação de Keanu Reeves expõe a fragilidade e a falta de coerência de seu roteiro, alguns instantes nonsenses provam a inconsistência do longa, como quando Jesse resolve se maquiar (do nada) e fazer um discurso vergonhoso em uma piscina (do nada), ou quando uma onça aparece em seu apartamento e isso, assim, como diversos momentos da obra, não geram consequências ou demonstram ter uma razão maior para estarem ali, como personagens secundários que são descartados facilmente ao decorrer da trama, provando o quão irrelevantes eram desde o início.

Por fim, "Demônio de Neon" cai na própria armadilha, desfrutando de tudo aquilo que ele tenta criticar. É visualmente poderoso, rico em detalhes e cores, no entanto, sua essência vai se tornando cada vez mais oca. Uma obra que é mais atenta à estética, que tem a pretensão de ser um filme de arte e ser mais do que realmente é, onde no fundo é tão belo quanto a aparência de suas personagens e tão fútil quanto todas elas. Nem mesmo Elle Fanning, que é linda e uma grande atriz, conseguiu fazer do longa um evento mais interessante. Do elenco, Jena Malone é o único grande destaque, que faz de sua Ruby um ser extremamente enigmático. Vale pela experiência, pelas sensações que oferece através de sua montagem bem conduzida e por alguns bons diálogos que indicam válidas reflexões. Um exercício cinematográfico que até merece uma chance, porém, muito longe de ser tão bom quanto seu trailer e seus minutos iniciais prometiam. Fico, ainda, a espera do próximo projeto do diretor, no entanto, agora sigo consciente de que Nicolas Winding Refn é um cineasta pretensioso e que "Drive", obra na qual admiro bastante, não passou de um (incrível) acidente de percurso.

NOTA: 6





País de origem: EUA, Dinamarca, França
Duração: 110 minutos
Distribuidor: California Filmes
Diretor: Nicolas Winding Refn
Roteiro: Nicolas Winding Refn, Polly Stenham, Mary Laws
Elenco: Elle Fanning, Jena Malone, Karl Glusman, Bella Heathcote, Abbey Lee, Alessandro Nivola, Desmond Harrington, Keanu Reeves, Christina Hendricks

Um comentário:

  1. Jura que vc não gostou? A minha visão deste filme: O filme é totalmente metafórico, simbólico. Por exemplo, no caso do felino que está à espera da protagonista no quarto: Refn compara o tempo todo no filme as modelos aos felinos, pois a beleza delas sempre está ligada à beleza selvagem, exótica, diferente do comum. Mesmo a protagonista tendo uma cara de anjo, sua essência é selvagem, como ela mesma diz, a mãe sempre a chamou de "perigosa". A metáfora: neste mundo da moda, beleza e superficialidade sempre haverá um felino espreitando atrás da sua porta. Por isso o felino a espera no quarto. Outra cena simbólica: o canibalismo. Neste mundo que elas vivem, uma quer comer a outra. Uma disputa acirrada por trabalhos, por exposições de suas belezas e competição de seus dotes: quem é a mais bonita, diga espelho meu? No filme, as modelos comem a protagonista, metaforicamente. O filme todo é permeado por simbolismos e metáforas. Não adianta assistir a filmes cults com olhar hollywoodiano. Esqueçam. Para mim, é um filme sensacional, Fernando, daqueles que você nunca vai esquecer a história. Abraços!

    ResponderExcluir

Deixe um comentário #NuncaTePediNada