quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Crítica: Destino Especial (Midnight Special, 2016)

Se há aqueles que duvidam do potencial das ficções científicas atuais ou que o gênero perdeu a originalidade, "Midnight Special" vem para provar que ainda é possível reciclar ideias sem perder o frescor, sem subestimar o público. Trata se de uma obra sensorial, intrigante e que ao longo de seus belos minutos, conquista pela sensibilidade e pela comoção causada por sua trama.

Se em 2016 o grande achado da Cultura Nerd foi "Stranger Things", podemos dizer que "Destino Especial" não poderia ter vindo em melhor hora, logo que dialoga muito bem com os admiradores da série. Desde suas boas referências ao clima oitentista. Os projetos secretos do governo também estão lá e mais uma vez, um criança com habilidade sobrenatural é o centro de tudo. Uma das grandes diferenças, porém, está na condução do diretor Jeff Nichols, que foge da aventura familiar e constrói uma obra mais intimista, mais realista, flertando muito mais com a complexidade dos quadrinhos do que com as ficções de Spielberg. Aqui, ele também traz muitas características do cinema independente norte americano, remetendo aos seus ótimos trabalhos anteriores (Take Shelter, Mud), ainda que este seja seu primeiro filme financiado por um estúdio. Com baixo orçamento, o diretor faz aqui seu produto mais completo, onde a simplicidade de sua produção não o impediu de realizar algo grandioso, belo, tão intrigante quanto fascinante.


O roteiro, também assinado por Nichols, é lento, traz diversas pausas e não se preocupa em responder todas as questões lançadas, deixando algumas importantes lacunas em aberto. Poderia ser um problema se sua narrativa não fosse tão brilhante, nos compensando a cada segundo. Não perdendo muito tempo com introduções, somos lançados à misteriosa fuga de Roy (Michael Shannon), acusado de raptar o próprio filho, o pequeno Anton (Jaeden Lieberher), que possui poderes especiais e vive em um Rancho habitado por religiosos extremistas que encaram suas habilidades como um sinal divino sobre o julgamento final. Perto de chegar a data revelada em suas tantas predições, seu pai, juntamente com seu amigo Lucas (Joel Edgerton), o sequestra e embarcam rumo a um local desconhecido. Porém tudo se complica quando o FBI cria uma missão para resgatá-lo, logo que Anton possui, devido a seus tantos poderes, informações sigilosas do governo.

Enquanto o pequeno Anton segue sua pequena aventura, encontra nas páginas do Superman algumas respostas para sua inusitada condição. Visto como arma para o governo e como salvação para o seu povo, ele segue convicto de que possui uma missão em terra, que algo além da compreensão de todos esteja por vir. Neste sentido, é comovente toda a construção de "Midnight Special", quando fala sobre esta necessidade humana em encontrar respostas, um sentido maior para a existência. A presença de Anton não os assusta e estranhamente, os conforta, lhes entrega paz e uma boa dose de esperança. Compreender o destino do menino é como aceitar que existe algo a mais, um plano maior que os esperam. É belo sua relação com aqueles que dividem sua jornada, o olhar terno e solidário de seus pais, que sofrem por sua possível partida, mas encontram nele a força para seguirem em frente. O longa, por fim, soa como uma interessante metáfora sobre ser pai, aceitar esta missão ingrata e ao mesmo tempo tão satisfatória, de criar e amar alguém e ainda assim ajudá-lo a partir, seguir seu próprio rumo. É doloroso, cruel mas necessário.

"Destino Especial" acerta e muito na construção de seus personagens e Jeff Nichols consegue extrair o melhor de seu elenco. Michael Shannon, em mais uma parceria com o diretor, mostra uma força descomunal. É muito forte sua relação com o filho, a sua garra em fazer tudo dar certo mesmo quando não é mais possível. O pequeno Jaeden Lieberher convence, é doce, age como uma criança e faz tudo parecer ainda mais crível. Sou fã de Joel Edgerton, logo, sou sempre suspeito em elogiá-lo, mas é  admirável sua entrega, assim como Kirsten Dunst, que cresce em cena e traz muito sentimento à sua personagem, comovendo com sua potente e delicada performance. Até mesmo Adam Driver, mais contido, constrói um tipo interessante, funcionando como um bom alívio à toda seriedade da obra, mas sem deixar de ser importante na trama.

A excelente composição de David Wingo para a trilha sonora tem o grande feito de trazer de volta aquilo que se perdeu nas boas ficções científicas, um tema forte e que é, aliás, muito bem inserido nas sequências. Outro acerto foram nos efeitos especias que, brilhantemente, nos remetem a produções antigas e isso o torna um produto ainda mais refinado, mais fascinante de acompanhar, justamente por não ser óbvio, não parecer um filme lançado nos dias de hoje, onde a qualidade e exagero da computação gráfica parece mais importante que todo o resto. Esta é a beleza do trabalho de Jeff Nichols, não parece de nosso tempo. A beleza do que ele faz também se faz presente quando é perceptível sua paixão pelo cinema, sua paixão pelo o que faz. É nítido quando ele consegue fazer um filme que é coração puro, é genuíno, tem sentimentos reais e por isso acaba fazendo um bem enorme aquele que assiste, se, claro, conseguir adentrar a proposta ousada do diretor. Não é um produto fácil e não será um sucesso imediato, no entanto, espero que seja mais uma daquelas obras encontradas ao longo dos anos. Merece ser achada e apreciada. Muitos o criticaram pela falta de respostas, mas não senti essa necessidade, não penso que haja algo a mais a ser dito além do que foi. Vi algo completo, profundo e que me encheu de bons sentimentos. E quanto ao seu final, foi uma das coisas mais sensíveis que vi este ano. Estranho sim, mas incrivelmente tocante.

NOTA: 9,5


País de origem: EUA
Duração: 112 minutos
Distribuidor: Warner Bros.
Diretor: Jeff Nichols
Roteiro: Jeff Nichols
Elenco: Michael Shannon, Joel Edgerton, Jaeden Lieberher, Kirsten Dusnt, Adam Driver






2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Achei essa porcaria um lixo,me decepcionei,muito fraquinho.Não sei se o menino e um et ou um anjo ,é uma ficção que não precisava ser lançada e eu assisti com expectativa de ser um filme espetacular mas não foi.A parte boa é a presença da Kirsten Dunst,ela é muito linda.

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