segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Crítica: O Programa (The Program, 2015)

Baseado em uma das maiores farsas da história do esporte, "The Program" nos revela que na vida é possível encontrar tramas tão absurdas quanto as da ficção.

Fernando Labanca

O ciclista Lance Armstrong foi protagonista de um polêmico capítulo do esporte. O longa, dirigido pelo veterano Stephen Frears, se baseia no livro "Sete Pecados Capitais" escrito pelo jornalista David Walsh, que durante anos se dedicou a compreender as mentiras por trás da gloriosa carreira do competidor. Armstrong, vitorioso por anos consecutivos da Tour de France, uma das maiores e mais prestigiadas competições de ciclistas, teve todos os seus prêmios invalidados em 2012, quando revelou na mídia aquilo que escondeu durante toda sua trajetória, que fez parte do mais sofisticado esquema de doping já visto na história. O filme acompanha todo o caminho percorrido pelo promissor esportista (interpretado por Ben Foster), que sobreviveu a um câncer e se revelou um herói, ajudando organizações em prol de vítimas da doença e superando sua fraqueza, se tornando um grande campeão.


Não é sempre que uma boa manchete se transforma em um bom filme. "O Programa" é um exemplo a se destacar, deixando de ser apenas uma grande matéria de jornal, mostrando-se um produto interessante como cinema, ainda que não esconda seu tom de documentário investigativo. Poderia ter sido tudo muito simples, logo que não há tantas reviravoltas nem saídas imprevisíveis, no entanto é, ainda assim, inegável a força do longa, que facilmente nos seduz ao seu jogo de mentiras e trapaças, crescendo ao seu decorrer, entregando uma trama intrigante, que nos faz questionar a todo instante como tudo aquilo foi possível na vida real, além de performances sólidas de um competente elenco. Acredito que tenha sido um momento notável na carreira oscilante do britânico Stephen Frears, que sai um pouco de sua zona de conforto e constrói um filme relevante. O grande destaque de sua produção é, sem dúvidas, sua ágil montagem, que mescla com maestria arquivos reais, notícias, além das belíssimas sequências em movimento quando capta os competidores em ação.

O filme peca na falta de ambiguidade em seus protagonistas. O embate entre o jornalista David Walsh, aqui vivido por Chris O'Dowd, e seu alvo de pesquisa, Lance, teria sido mais interessante se eles deixassem de agir, por alguns instantes, fora de seus respectivos códigos de conduta. É uma visão pouco convincente a desse escritor que luta com todas as suas forças para incriminar alguém apenas porque ele fere sua moral, sem segundas intenções, como se o furo jornalístico não passasse em sua mente. Ele é correto demais para isso. Lance Armstrong perde um pouco na tela quando o roteiro nos impede de ver seu lado mais humano, não há nenhum resquício de bondade ou de boa intenção em suas atitudes, o que dificulta esta conexão com público e dificulta vê-lo como um ser real. Claro, ainda não deixa de ser um personagem que nos causa algo, nos intriga e nos deixa curiosos sobre suas motivações. Sorte, também, é ter o talento de Ben Foster para compor a loucura, obsessão e fúria existente em Armstrong. Se trata de uma atuação marcante, irreparável. Seus discursos arrepiam e sua força em cena é admirável.

"O Programa" se firma como um excelente drama de esporte, mostrando com competência os conflitos existentes nas grandes competições, as rixas e aquela constante procura em ser o mais veloz, o melhor. Traz, também, a adrenalina quase como religião, aquilo que motiva a vida dos profissionais, que os tornam preenchidos. O longa também discute a ética no esporte, construindo um debate eficiente sobre o doping. E nada melhor que discutir a moral de um esportista e o quanto suas escolhas podem gerar consequências inimagináveis do que apresentar a jornada de Lance Armstrong. Um homem que não mediu esforços para alcançar seu auge, a perfeição. "The Program" é sobre o nascimento desse herói, que construiu um império através de uma farsa, que conquistou fãs, que entregou uma história de superação e tudo aquilo que a mídia precisa para contar e uma sociedade precisa para se inspirar, acreditar no futuro melhor. Revelar as mentiras de Lance era mais do que destruir uma brilhante carreira, havia muito mais em jogo. Havia o sonho corrompido, havia a herói desarmado. Revelar a verdadeira face do homem seria como revelar o quão na merda o mundo está.

NOTA: 8



País de origem: Reino Unido, França
Duração: 103 minutos
Distribuidor: California Filmes
Diretor: Stephen Frears
Roteiro: John Hodge
Elenco: Ben Foster, Chris O'Dowd, Jesse Plemons, Guillaume Canet, Lee Pace, Dustin Hoffman






Um comentário:

  1. Olá Fernando! Gostei de sua avaliação! O filme é realmente muito bem feito com grandes interpretações! EÉ realmente um filme para se ver! Eu daria tranquila 9,5! Abraços

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