domingo, 30 de agosto de 2009

Crítica: O Contador de Histórias (2009)


Filme nacional que mescla fantasia com realidade, traz aos cinemas a vida de Roberto Carlos Ramos, que como diz no cartaz, ele escreveu sua história contando muitas outras.


por Fernando

Roberto Carlos hoje é um contador de histórias formado em pedagogia, mas até chegar aonde chegou muitas coisas aconteceram. Quando criança, morava com sua família numa favela em Minas Gerais, com sua mãe e seus mais nove irmãos. Sua mãe sonhava em proporcionar uma vida melhor a seus filhos, mas não podia, eram pobres e mal conseguia pagar a comida, até que o governo lança na TV (a mesma que assistiam uma vez por semana na casa de um vizinho) um projeto que mudaria a vida dos jovens, a FEBEM, um instituto que permitiria que garotos futuramente se tornassem doutores, médicos, engenheiros. Com isso, a mãe decide levar o caçula e assim, mudar o rumo de sua vida, Roberto Carlos é o escolhido e vai tal instituto, acreditando que seria um paraíso, assim como via em sua imaginação, como se fosse um circo com trapezistas e palhaços, mas não era bem assim. Na Febem, ele tanta se adaptar a nova vida, longe da família, sofre com a separação, mas percebe que aquela era sua vida a partir daquele momento, gostando ou não, e tenta com sua criativa imaginação viver a realidade, assim como via sua professora de educação física como sendo um hipopótamo. As coisas pioram quando completa sete anos e é levado para viver junto com os maiores, é espancado, violentado, e a partir de então, participa de mais de cem fugas e entra para o mundo em que sua mãe tentava impedir, um mundo que envolvia policia, furtos e violência. Roberto Carlos cresce, se torna um garoto, assim como diziam, irrecuperável.

Sua vida muda quando conhece Margherit, uma pedagoga francesa que viajava temporariamente no Brasil para fazer uma pesquisa, conhecer o nossa cultura, o nosso estilo de vida, a nossa língua, ela já vivia aqui por um longo período, até que sua grande chance surge, se depara com o rebelde quando visitava a Febem, decide conversar com ele e conhecer a sua história, é quando ele decide colocar sua imaginação em prática, e começa a contar sua vida de um modo que só ele sabia contar, um jeito próprio, sob um ponto de vista criativo sobre tudo o que havia vivido, mas ele precisava ir e não termina sua história. Empolgada com a situação, Margherit vai atrás do garoto, ele estranha tal perseguição e percebe que é sua chance de "se dar bem", vai até sua casa e a rouba, a deixando espantada, mas descrente de que ele fosse realmente irrecuperável.

Roberto vai embora da Febem e percebe que o mundo que lhe esperava não havia mais espaço para imaginação, um mundo cruel, não tinha mais oportunidades, o mundo fechou para ele, sua única opção é a criminalidade, até que decide roubar, mas é abusado sexualmente, até que decide morrer, mas falha, até que decide ir atrás da única pessoa que havia lhe dito "obrigado" e "por favor", a única pessoa que abriu a porta da prórpia casa, Margherit.

A pedagoda lhe dá outra chance, lhe dá conforto e comida, temporariamente, até ele arranjar um lugar para ficar, em troca, ele conta sua história e consequentemente, aprende com ela, o francês. Juntos, eles descobrem uma improvável amizade, enquanto ele percebe que ela é um milagre que ocorreu com ele, a probabilidade de alguém salvar outra pessoa e dar todas as oportunidades que ela lhe dá, são mínimas.

O Contador de Histórias nos trás talvez um tema batido, a pobreza, a vida nas favelas, a criminalidade nas ruas, mas ele inova esses temas, os colocando na tela, com maior leveza, sem apelar para a violência, em alguns momentos, é forte, mas nunca é mostrado com tanta crueldade como é sempre mostrado nos filmes nacionais. A pobreza está lá, marcando presença, mas a vida nas favelas nunca foi mostrada com tanta beleza, tranquilidade, sofrimento também existe, mas também há um toque de felicidade. E está aí, o grande mérito do filme.

Além do fato, de juntar realidade com a imaginação fértil do garoto, dando maior sensibilidade ao longa. As cenas em que ele coloca suas histórias da maneira como ele quer acreditar, são perfeitas, assim como a cena do circo, a maneira como ele acreditava que era a Febem, no maior estilo de Em Busca da Terra do Nunca de Marc Forster, ou como quando ele colocava o seu ato de roubar ao lado de seus amigos como sendo uma partida de futebol, ou como quando vê o maior bandido da favela, seu ídolo, como sendo um rei, descendo as escadarias da igreja, simplesmente incrível. O filme ainda utiliza de efeitos visuais para reproduzir uma de suas imaginações. E esses momentos, sem sombra de dúvida, são os melhores do filme.

O diretor Luiz Villaça é competente, reproduz a incrível jornada de Roberto Carlos com muita leveza e descontração, emocionante em algumas passagens, e divertida em outras. O drama é bem colocado, sem cair no dramalhão, apesar de algumas cenas exigirem mais carga dramática do que realmente é exposto. A comédia é outro ponto positivo, o filme, mesmo se tratando de um drama, não perde a piada e nem o estilo, sempre dando espaço, principalmente, na primeira parte do longa, para boas cenas cômicas.

Atuação não é o forte do filme, onde alguns atores deixam a desejar, o destaque fica para Maria de Medeiros, que interpreta Margherit, dando a personagem extrema delicadeza e carisma. Facilmente conquista o público, é meiga e trás uma mensagem interessante, um exemplo de ser humano.

O Contador de Histórias chega aos cinemas, mesmo quando se tratando de cinema nacional, a preferência do público é comédia. Mas o filme tem seus méritos, merece ser visto, assim como muitos filmes nacionais que ainda enfrentam certo preconceito. E mesmo com a chuva de filmes Hollywoodianos chegando constantemente, o filme tem seu destaque. Não é o melhor filme nacional de todos os tempos, mas é melhor que muitos que vi ultimamente. Não o veja achando que vai ser mais um drama nacional sobre preconceitos, pobreza, criminalidade, é sobre a vida de um homem que enfrentou todas as dificuldades, e que para isso, ele precisou de uma mão amiga, e é isso o que as pessoas precisam, de um apoio, de que outras pessoas acreditem nelas, é sobre integração social, é sobre dar uma segunda chance para aqueles que veem diariamente todas as portas se fechando, pois todos merecem uma vida mais digna.

NOTA: 7

Um comentário:

  1. nossa uma historia de vida e tanta meu trabalho de port e sobre ele

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