terça-feira, 10 de julho de 2012

Crítica: Sombras da Noite (Dark Shadows, 2012)

Baseado num seriado norte-americano que fora transmitido pelo canal ABC no final da década de 60, "Sombras da Noite" parecia ser o cenário perfeito para o retorno do visionário Tim Burton, longe das telas desde 2010 com o fraco "Alice no País das Maravilhas". Um filme de época, com direito a fantasmas e uma família disfuncional, elementos que Burton já havia trabalhado antes e mostrado todo seu talento, seja em obras como "Beetlejuice", "Edward Mãos de Tesoura" ou "Noiva Cadáver", entretanto, o diretor carece, diferente desses citados, de um bom roteiro e o resultado acaba que sendo um pouco decepcionante diante de tanta expectativa que girava em torno deste seu retorno. 

por Fernando Labanca

Com mais uma parceria entre Tim Burton e o ator Johnny Depp, aqui o astro interpreta Barnabas, que teve o desprazer de conhecer Angelique (Eva Green), uma bruxa que se apaixona perdidamente por ele no final de século XVIII e devido a sua paixão sem limites, usa seus poderes para matar não só Barnabas como também a bela Josetta (Bella Heathcote), aquela a quem o jovem era apaixonado. Quase duzentos anos depois, mais precisamente no ano de 1972, ele retorna do mundo dos mortos, como um vampiro, sedento por sangue e sem compreender que os anos se passaram. É então que ao chegar em sua mansão, conhece sua família, seus descendentes, cheia de problemas, o garoto que vê fantasmas, a jovem (Chloë Moretz) que gosta de fugir dos padrões, a médica que não aceita a velhice (Helena Bonham Carter), o pai ausente (Jonny Lee Miller) e a mãe que tenta ser o pilar de tudo isso (Michele Pfeiffer), sendo que apenas ela sabe a verdadeira situação de Barnabas. A partir de então, ele tenta recuperar o status da família, reerguer os negócios de pescaria e enfrentar a grande rival, Angelique, que ainda vive e ao saber do retorno do amado tenta a todo custo tê-lo de volta, nem que para isso, ela precise matá-lo outra vez.


Como havia escrito no início, "Sombras da Noite" carece de um bom roteiro. Escrito por John August e Seth Grahame-Smith, não é, porém, a todo momento que eles falham. A introdução é incrível, a maneira como as personagens nos são apresentadas, a rotina mórbida daquela família, a chegada de Barnabas a um mundo que ele desconhece, gerando sempre boas piadas, enfim, tudo é colocado no seu devido lugar e funciona tudo perfeitamente. Para melhorar, ouvimos alguns bons diálogos, humor esperto, bem elaborado, até mesmo nos momentos mais românticos, a dupla de roteiristas se mostraram inspirados. Entretanto, quando o filme caminha para seu final é que a fraqueza daquela estrutura vem a tona. Em um seriado de TV, ter inúmeras tramas é sempre uma qualidade e também pelo tempo, é sempre possível trabalhar diferentes situações de uma mesma história. No cinema, porém, se não houver um roteiro firme que sustente tanto elemento é difícil não fugir do fracasso e é o que ocorre aqui, e em sua conclusão, parece não conseguir arranjar um final decente para cada um desses elementos e tudo acaba de um jeito apressado e nada lógico, desrespeitando toda a trama, chegando a desrespeitar o próprio público, que envolvido na magia daquele universo lúdico e bizarro de Burton se depara com soluções patéticas, onde nada faz realmente muito sentido.

Johnny Depp está lá mais uma vez, cheio de maquiagem interpretando um personagem estranho. Há anos atrás, isso surpreendia, hoje, não mais. Sua atuação é ótima, isso é inegável, mas não vai além do que esperamos dele. O resto do elenco cumpre sua função, por vezes caricatos demais, outras, quase que no piloto automático, Michele Pfeiffer, Jonny Lee Miller, a sempre encantadora Chloë Moretz, a sempre presente Helena Bonham Carter, o divertido Jackie Earle Haley e a novata Bella Heathcote, um pouco sem sal, mas agrada.  O grande destaque, porém, fica para a veterana Eva Green, com seu olhar hipnotizante e seu persuasivo sorriso, a atriz definitivamente rouba a cena, demonstra compreender a brincadeira de Burton, brilha como a vilã e faz tudo ao seu redor parecer pequeno.

Não há como analisar Tim Burton sem não citar o visual de sua obra que mais uma vez é um dos pontos positivos. Com uma bela fotografia e cenários bem construídos, o visual agrada e remete e muito aos trabalhos anteriores do diretor, como "Sweeeney Todd", "Edward" ou "Big Fish". Ainda vemos belos figurinos bem detalhados e que ajudam nas composições das diferentes épocas retratadas. Aliás, muito do que vi em "Sombras da Noite" me remeteu a outras obras de Burton e isso de certa forma é bom, aquele clima de aventura familiar como em "Beetlejuice" e toda aquela forma excêntrica com que ele trata a morte como em "Noiva Cadáver". No entanto, aqui tudo parece um pouco menor, seja pela simplicidade das ideias, sem grandes inovações ou pela simplicidade do próprio formato, onde há poucas locações, tudo parecendo um teatro ou uma pequena série de TV e isso foge bastante da grandiosidade "Burton". Entretanto, por mais que seja uma obra menor do diretor não figura entre os piores dele e se colocado perto de filmes como "Marte Ataca", "A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça" e "Alice", de fato, parece genial. Apesar de seu péssimo final, consegue divertir e envolver o público em sua trama. Recomendo, mas não tenha pressa, terá o mesmo sentido se visto dublado e com intervalos comerciais daqui alguns anos na TV.

NOTA: 7


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