sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Crítica: 360 (2012)

Baseado na peça de Arthur Schnitzler, novo filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, é uma produção requintada filmada em seis países diferentes. Com roteiro de Peter Morgan, o mesmo de "Frost/Nixon" e "A Rainha", conhecemos nove histórias envolvendo casais de diversas partes do planeta e como suas ações e escolhas interferem na vida de outros, mesmo que estes estejam à quilômetros de distância.

por Fernando Labanca

A vida de um indivíduo é como um ciclo, mas que depende, indiretamente, das ação de outros para seu movimento. A premissa de "360" é justamente essa, vidas que são alteradas pela escolha de terceiros. Mirka (Lucia Siposová) é uma jovem tcheca que passa a se prostituir por dinheiro numa agência de "luxo" e um de seus primeiros clientes é o empresário Michael (Jude Law), que por sua vez é casado com Rose (Rachel Weisz), que o aguarda em casa, em Londres, enquanto isso mantém uma relação com o jovem fotógrafo Rui (Juliano Cazarré) lhe prometendo uma carreira de sucesso, este que saiu do Brasil ao lado de sua namorada Laura (Maria Flor). Laura, que ao descobrir a traição de Rui, decide voltar para casa, mas no caminho se depara com um senhor (Anthony Hopkins) que ainda sofre pela perda da filha e um misterioso rapaz (Ben Foster), recém liberado da prisão. Um dentista muçulmano (Jamel Debbouze) perdidamente apaixonado por sua assistente (Dinara Drukarova), mas que é casada com o motorista Sergei (Vladimir Vdovichenkov), mas são infelizes juntos e ele toma uma grande decisão em sua última viagem, quando sua vida se cruza com a de Mirka, a prostituta.


"360" é uma interessante mistura de Alejandro González Iñárritu/ Guillermo Arriaga e suas histórias entrelaçadas como em "Babel" com o romance "Closer- Perto Demais" de Mike Nichols. Se para Arriaga, que apostava nas coincidências do destino e construía suas tramas com um fundo político, Fernando Meirelles foca em outro aspecto, o dos relacionamentos amorosos, ainda nos fazendo refletir sobre o quão a nossa trajetória pode ser irônica. O filme vai costurando tramas que envolvem traição, novas descobertas, desilusões amorosas, pessoas que amam quem não podem, pessoas que abandonam quem amam, que retornam a quem um dia amou mas acabou esquecendo. Muitos acusaram o roteiro de não se aprofundar nas histórias contadas, essa sensação não me ocorreu, achei extremamente competente a maneira com que Peter Morgan guiou as tramas, todas possuem seus espaços, não havendo protagonistas, cada um se destaca a sua maneira, o bom roteiro consegue ainda colocar profundidade a cada personagem, onde cada indivíduo mostrado, tem sua importância, nenhuma história está ali a toa, tem sua função no conjunto e contribui para o resultado final.

O filme se inicia com uma narração em off, uma voz nos dizendo sobre bifurcações. A vida é como uma estrada de duas vias, onde a cada instante precisamos decidir sobre qual caminho queremos seguir, o problema que cada escolha implica numa consequência e não temos controle sobre ela, podendo afetar alguém que não conhecemos, construindo nossa vida, estamos, indiretamente, alterando a de outra pessoa. É interessante como o roteiro consegue traduzir esta idéia simples de forma tão agradável e inteligente, como aquela brasileira, interpretada por Maria Flor altera a vida de tanta gente sem ter a intenção e como para chegar aonde chegou precisou ser traída, precisou daquela esposa abandonada e infeliz em Londres. A vida é realmente muito irônica, complexa, onde cada vírgula tem sua razão de existir, nada é por acaso, tudo nos leva para um plano maior. O interessante também é que o roteiro desenvolve histórias simples, sem grandes revelações, sem muitos obstáculos, um momento do cotidiano de cada ser, exemplificando o fato de como as mais simples escolhas de nossa rotina podem alterar tanta coisa. A trajetória de várias pessoas, em diversos cantos do planeta, no momento da vida em que decidem fazer algo a mais por elas mesmas, é quando o filme questiona, temos escolhas a cada instante, mas vivemos apenas uma vez, quando é que teremos a oportunidade de escolher aquele caminho novamente?

Os personagens são realmente interessantes, mérito do grandioso roteiro e do elenco, estrelado por nomes conhecidos do público e por atores de outros países, que parecem enriquecer ainda mais o projeto. Jude Law e Rachel Weisz estão lá entre os conhecidos, corretos, mas não surpreendem, mas são personagens interessantes. Entre as histórias mais bem desenvolvidas está a do ator russo Vladimir Vdovichenkov, que se destaca, assim como o francês Jamel Debbouze, numa trama que emociona pela simplicidade. O brasileiro Juliano Cazarré aparece bem pouco, mas não decepciona. Mas quem rouba a cena mesmo é o trio Maria Flor, Ben Foster e o veterano Anthony Hopkins. O personagem de Foster é com certeza, o mais intrigante de todo o filme, se entrega e realiza alguns dos melhores momentos, assim como a bela e brasileira Maria Flor, que de todas as histórias contadas, é a dela a mais marcante. E Hopkins que surge renovado, parecia que ao longo dos anos ele havia elaborado uma fórmula para atuar, seu "método Hannibal", é então, que em pouco mais de três cenas na tela, ele fez muito mais que atores fazem num longa inteiro, é belo, humano, muito convincente seu olhar triste e vazio, ao mesmo tempo esperançoso. É realmente complicado desenvolver uma história com tantas tramas, tantos personagens, ainda mais envolvendo países diferentes, idiomas diferentes, culturas diferentes, é admirável o que Meirelles e Morgan realizam aqui, o resultado é bastante positivo, pois tudo de fato, agrada e consegue se manter no bom nível suas duas horas de duração, são história simples, fáceis até de compreender, no entanto, é tudo tão bem feito, tão bem construído, que tudo passa a ser mais grandioso do que realmente é, histórias que cativam e nos prendem até seu final. 

Trilha sonora conveniente, buscando em diversos idiomas ilustrar os diversos cenários e situações. Destaque também para a fotografia de Adriano Goldman e a excelente edição realizada por Daniel Rezende. Fernando Meirelles é um excelente diretor, podem dizer que se vendeu para Hollywood, o que for, mas é inegável seu talento, depois de grandes obras que realizou lá fora como "O Jardineiro Fiel" e "Ensaio Sobre a Cegueira", "360" entra para a lista, um filme incrível, grandioso, repleto de bons momentos, bons diálogos e atuações marcantes de um elenco competente. Um roteiro bem pensado, inteligente, que por mais simples que seja, não deixa de ser envolvente, emocionante e não deixa de trazer boas reflexões ao seu final. Recomendo. 

NOTA: 9,5



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