sexta-feira, 26 de julho de 2013

Crítica: As Sessões (The Sessions, 2012)

Indicado ao Oscar 2013 na categoria Melhor Atriz Coadjuvante para Helen Hunt, "As Sessões" é uma comédia dramática independente, que conta com a direção e roteiro de Ben Lewin. Baseado em um dos casos descritos por Cheryl Cohen Greene, no livro "Minha Vida como Terapeuta do Sexo", a obra foca na delicada trajetória de Mark O'Brien, escritor e poeta, vitima de poliomielite, que sem os movimentos do corpo foi atrás de sua primeira relação sexual. Com atuações marcantes de John Hawkes e William H.Macy, se trata de um filme extremamente sensível e surpreendentemente ousado.

por Fernando Labanca

Mark O'Brien (John Hawkes) teve poliomielite aos seis anos de idade, a doença o deixou com o corpo paralisado com exceção da cabeça e sobrevive por um aparelho que ele mesmo chama de "pulmão de aço". Aos trinta e oito anos de idade e com sua mente totalmente lúcida, Mark dedica a sua vida em escrever e ao ser convidado para publicar um artigo sobre relações sexuais entre pessoas deficientes, percebe que precisava abrir as portas para aquilo que sempre negou por se achar incapacitado, o sexo. Religioso, ele vai atrás de um padre, Brendan (William H.Macy) e pede autorização para que entre em contato com uma terapeuta do sexo, uma mulher que possa ensiná-lo a como ter relações em um caso tão específico como o dele. É então que conhece Cheryl (Helen Hunt), que através de seis sessões passa a iniciá-lo ao sexo através de exercícios de consciência corporal.


"Deixe-me tocá-la com minhas palavras, pois minhas mãos quedam inertes como luvas vazias."

"As Sessões" é um filme corajoso. Em cada diálogo, cada cena, vejo uma coragem daqueles que o realizaram, pois se trata de um tema complicado, pouco explorado, e assim, vemos o nítido cuidado que tiveram com o roteiro, pois conseguiram trabalhar com uma trama tão complexa, tão difícil e transformá-lo em algo leve, agradável e acima de tudo, poético. Colocam em pauta o sexo entre deficientes, exploram uma realidade pouco vista de forma sensível e honesta. A relação sexual e conhecimento do próprio corpo surgem na tela de maneira natural, longe de ser obsceno, despem seus personagens de forma literal, não havendo glamourização do corpo e os colocando em situações que os façam ignorar qualquer tipo de consenso, os libertam de julgamentos e moralismos.

Mark O'Brien é daqueles típicos personagens fáceis de se gostar. É interessante a maneira como ele se comporta em cada momento da trama, ficamos analisando cada fala, cada pensamento e nos divertimos e nos emocionamos com ele, sua sinceridade é bela, inspiradora, a forma como encara as relações que mantém com os outros, sua honestidade transmitida naturalmente e mesmo com suas limitações e dificuldades ele transforma a vida em algo tão simples. Vejo beleza também na relação que ele tem com padre e essa amizade que surge aos poucos e principalmente sua relação com Cheryl, que é casada e tenta não se envolver com aqueles que conhece em sua vida profissional, mas quando se depara com Mark, todo o seu controle emocional se fragiliza. Qual seria o limite de uma relação sexual e um envolvimento amoroso? Só existe uma verdade ali, a sintonia entre os dois é real, as conversas entre eles durante as sessões é de uma sensibilidade extrema.

John Hawkes está simplesmente incrível, sem dúvida, uma das melhores atuações masculinas que presenciei este ano, a delicadeza com que ele compõe seu personagem, tão único, tão marcante. Helen Hunt chama a atenção por sua coragem em cena, sua nudez surge de forma crua, sem ser sensual, e por isso é tão belo o que ela faz, além de sua atuação que sempre surpreende, há verdade em cada olhar, cada palavra que ela diz. E William H.Macy, totalmente a vontade, contribuindo ainda mais para a qualidade do elenco.

"As Sessões" é um belíssimo filme que vale muito a pena ver e apreciar. Me surpreendi, esperava ver apenas um drama simpático...sim, ele também pode ser considerado um "drama simpático", mas é muito mais que isso, é uma obra ousada, corajosa, que desenvolve uma trama difícil, de forma leve, sensível, que emociona profundamente mesmo sem exageros. Honesto, inteligente e poético. Recomendo.

NOTA: 9



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