segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O Homem Que Incomoda (Den Brysomme Mannen, 2006)

Lançado no Festival de Cannes em 2006, o filme norueguês chegou a ser apresentado na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, apenas em 2010. Se trata de uma obra única, um cinema raro e de extrema qualidade, com sua história tão inusitada, fantasiosa, mas ao mesmo tempo, tão perto de nossa realidade.

por Fernando Labanca

Andreas é um homem que certo dia desembarca em uma cidade, sem saber exatamente como chegou ali, se depara com pessoas que o recebem muito bem, são aparentemente todos felizes e cada ser ali exerce uma função, em uma rotina totalmente regrada, é então que esta "vida" lhe é apresentada, tem um trabalho a fazer como contador de uma grande empresa e tem seu próprio apartamento, e assim vai se adaptando aos padrões daquele mundo. Aos poucos, ele vai percebendo que tem algo de errado com o lugar, as pessoas ali parecem não sentir, não se envolvem emocionalmente com nada, conversam sobre futilidades e pouco se importam com suas relações. Eis que Andreas acaba conhecendo um homem que parece ter as mesmas dúvidas que ele, parece sentir exatamente o que ele sente, a falta de uma vida, de cheiros, de sons, pequenos detalhes que não mais existem nesta cidade sem saída.


"O Homem Que Incomoda" desperta o interesse logo em sua primeira cena e conseguiu me prender facilmente até seu final. A história é de uma originalidade extrema, daquele tipo que é difícil encontrar hoje em dia, por isso é altamente recomendável, simplesmente por ser diferente. A maneira como a trama nos é apresentada, os personagens, os ambientes, tudo com muito cuidado e o roteiro, tão rico em detalhes, ganha força ao instigar aquele que assiste, jamais subestimando a inteligência de seu público e sem o uso de uma narração em off, recurso tão insistente no cinema atual, nos dá margem para nossa própria interpretação, nos deixa livres para acompanhar a obra, jamais nos entregando o que se passa na mente de seus personagens e nunca revelando os porquês, nem de onde vieram, como foram parar ali, nem como este "mundo" começou. O cinema não precisa disso, o público aprendeu e se acostumou a ter, as razões, os motivos, mas não precisamos e este é o grande mérito da obra, por compreender isso e desta forma, desperta em nós, sentimentos tão fortes, pois nos instiga e nos surpreende, sem manipulações.

Se trata de uma história bem inusitada, curiosa, tudo é tão estranho que chega a ser cômico. O longa constrói em detalhes este mundo, até certo ponto fantasioso, onde os moradores nada sentem, vivem como seres programados, que despertam nenhum tipo de sentimento, é então que a inquietação e o surto de seu protagonista, aquele que veio de fora, transmite exatamente o que nós sentimos ou pensamos, e tudo isso ocorre muitas vezes, sem seus personagens dizerem nada, apenas com as imagens compreendemos o que se passa ali. É interessante este "mundo fantasioso" relatado, pois ele muito se assemelha ao modo como vivemos, uma forte crítica a sociedade contemporânea, tão vazia, sempre em busca dos mesmos sonhos, uma casa, um emprego, a vida de sempre, a rotina de sempre. O filme questiona justamente aonde foram parar aqueles sentimentos mais genuínos que completam a jornada de um ser humano, a valorização das coisas simples, seja a risada de uma criança ou o gosto de um chocolate quente, pois são essas coisas que definem o que é vida, são essas coisas que trazem sentido a ela e a cada vez mais elas se perdem. E o modo como esta ideia é transmitida, resulta em um final tão perturbador, depressivo, angustiante, mas que de certa forma, nos inspira, pois nos instiga a querer encontrar e apreciar essas "pequenas coisas".

A direção de Jens Lien é fantástica, nos entrega cenas muito bem construídas, auxiliado pela ótima trilha sonora e fotografia. O roteiro é simplesmente genial, como disse anteriormente, é montado sempre apostando na inteligência de seu público e o resultado é extremamente positivo, um filme que é difícil classificá-lo a qualquer gênero ou de chegar a uma conclusão correta. Recomendo. 

NOTA: 9,5






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