quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Crítica: Ensina-me a Viver (Harold and Maude, 1971)

Fracasso de público no ano em que foi lançado, 1971, “Ensina-me a Viver” foi ganhando ao longo dos anos o status de cult. Foi um dos pioneiros do cinema indie norte-americano, uma produção corajosa que foi muito além do que estava sendo realizado na época, sem intenção de ser moralista ou retratar a realidade do país, vemos um projeto intimista, delicado e que nitidamente serviu de referência para muito do que é produzido hoje no gênero. 

Por Fernando Labanca

Muitos apontam seu fracasso na época, devido a sua trama um tanto quanto absurda, que chocou a sociedade, pois não estavam preparados para ver o relacionamento amoroso de um jovem de vinte anos com uma senhora de setenta e nove. Sim, isso é muito absurdo e justamente por isso torna a obra tão marcante e tão única. 

Conhecemos Harold Chasen (Bud Cort), um jovem rico e solitário, que vive com sua mãe separada, e tem um estranho vício, executar falsos suicídios, além de visitar regularmente funerais de desconhecidos. É numa dessas visitas que ele conhece Maude (Ruth Gordon), uma senhora que tem este mesmo costume, entretanto, diferente dele, é extremamente de bem com a vida, faz sempre o que lhe vem a cabeça, sem se importar com o que é errado ou não. E com aquele clássico pensamento de “viver cada dia como se fosse o último”, Maude vai apresentar a Harold o que é vida, viver intensamente através da arte, da música, é então que dessa inusitada amizade surge o amor, o problema é que a mãe de Harold está a procura de uma mulher para ele se casar e Maude, definitivamente, está longe de ser o que ela espera para seu filho. 


Para uns, um dos mais belos e sinceros filmes da década de 70, para outros, uma das maiores histórias de amor que o cinema já viu. Meu repertório não é tão grande para fazer essas afirmações, mas posso afirmar que “Harold e Maude” foi um dos romances mais originais que já vi e com sua trama bizarra, absurda e inusitada, acaba que despertando sentimentos novos, abrindo possibilidades jamais vistas e que o cinema nunca mais teve a ousadia de repetir, não de forma tão incrível, tão sensível. E a construção de seus personagens é tão humana, relatando sentimentos cabíveis para nossa atual sociedade, fazendo com que a obra se torne atemporal, compreensível aos nossos olhos, nos afeiçoamos aos personagens e as situações ali mostradas. Isso porque, o diretor Hal Ashby, não sei afirmar se era um vanguardista, mas com certeza, realizou um filme que muito se assemelha ao cinema contemporâneo, a construção de seu protagonista e suas questões existencialistas, os diálogos ágeis, a naturalidade entre os atores e principalmente o uso da trilha sonora, acaba acentuando esta impressão, com belas canções do folk acústico de Cat Stevens, onde músicas como “Don’t Be Shy” e “If You Want to Sing Out, Sing Out”, compostas para o filme, funcionam bem na tela e são relevantes para a trama. Curiosamente o álbum oficial de “Ensina-me a Viver” somente fora lançado em 2007.

“Harold e Maude” é uma sequência bem orquestrada de diversos elementos, e desde a primeira cena, maravilhosamente bem montada, onde Harold se enforca na sala de sua mansão enquanto sua mãe fala ao telefone, passando por todas as sequências realizadas por este competente diretor, Hal Ashby, é tudo tão belo, os cenários, as locações, os diálogos, a fantástica (e viciante) trilha sonora e principalmente ver estes dois personagens tão únicos, interpretados por dois ótimos atores, numa história de amor tão excêntrica, ousada, é interessante como a diferença de idade, ao início nos causa um certo estranhamento, mas ao conhece-los, é inevitável não torcer por eles. Harold, o jovem que mantém uma relação com a morte e cada vez mais parece se distanciar do que é vida, do que é real, simplesmente por não ter encontrado seu espaço no mundo, e Maude, a senhora, o oposto, tão cheia de vida. Características que geralmente são atribuídas inversamente, e este contraste parece fazer bem aos dois, pois se completam. 

“Ensina-me a Viver” relata a história de duas pessoas que se libertam de qualquer consenso da sociedade, que vivem aquele exato momento, sabemos, como público, o quão tudo aquilo é loucura, uma paixão que jamais poderia ir adiante, mas esta é a beleza deste filme, ignorar qualquer obstáculo, pois quando o amor é real, transcende qualquer barreira. Acredito que faltou um pouco mais de emoção em seu final, ele simplesmente acaba, a trama parece necessitar de um final mais forte e isso não acontece, mas isso é pouco perto da genialidade e grandiosidade desta obra. Inteligente, ousado, que diverte com seu humor negro e emociona com sua sensibilidade. Recomendo.

NOTA: 9 


 

Um comentário:

  1. Reassisti o filme ontem e vi alguns detalhes que não tinha percebido da primeira vez em que o vi, há alguns anos: Maude (Marjorie), na verdade, é uma sobrevivente de um campo de concentração. Há um único momento em que ela chora, e se lembra de alguém (Ben?) que costumava repreendê-la por ser tão sonhadora... Mas, logo em seguida, ela faz um movimento para se libertar da tristeza e começa a cantar. Também sempre fiquei confusa quanto ao final - Harold mata seu lado triste, ao lançar o carro no precipício, e fica com o lado alegre de Maude, que é o banjo? Acho que essa foi a melhor definição que encontrei até agora. É um filme muito delicado, nota dez.

    ResponderExcluir

Deixe um comentário #NuncaTePediNada