segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Crítica: Uma Aventura Lego (The Lego Movie, 2014)

O que poderia ter se tornado apenas uma boa jogada de marketing para vender brinquedos, "Uma Aventura Lego" surpreende, provando o quão acertada foi a escolha de dar este arriscado projeto nas mãos da dupla Phil Lord e Chris Miller, os mesmos de "Tá Chovendo Hambúrguer", que assinam o roteiro e direção. E assim como no brinquedo, que ganha vida ao ser montado peça por peça, o filme alcança momentos de brilhantismo ao ter um roteiro que pensa nos detalhes, cena por cena, diálogo por diálogo, e assim vemos uma obra de inteligência extrema, tão bizarra e tão nonsense como quase nunca se viu antes em uma animação.

por Fernando Labanca

"Uma Aventura Lego" tem como proposta inicial distorcer de forma bastante cômica os arquétipos já tão conhecidos pela literatura e cinema, satirizando a jornada do herói, com direito a profecia de que ele é quem salvaria o mundo e com um velho sábio guiando seus passos. O personagem que vive a vida comum, logo após é chamado para uma aventura, encontra com seu mentor, enfrenta obstáculos, provações e ao seu final aprende algo que muda sua vida. Base de muitos roteiros, a genialidade da obra é justamente dar um novo sentido a tudo isso, inserindo um sofisticado humor nonsense.

O "herói" neste caso é Emmet, ele é um operário comum no universo Lego, não se acha especial, muito pelo contrário, se acostumou com a ideia de que ele é apena mais um na cidade em que vive, onde todos são controlados por câmeras, se vestem igual, tem as mesmas ambições e costumes e ouvem constantemente a mesma música, "tudo é incrível". Eis que uma bela garota cruza seu caminho, Mega Estilo, que acredita que Emmet seja o "Mestre Construtor", que segundo uma antiga profecia, ele seria o único a encontrar a peça de resistência, aquela que deteria o maligno presidente Sr. Negócios a acabar com o mundo em que vivem. Este "mestre" é um ser especial, uma mente criativa, capaz de criar qualquer coisa, características que Emmet acredita não ter, no entanto, ele não estará sozinho, parte da aventura consiste em reunir outros mestres, como Batman, Gandalf, Dumbledore, um gato unicórnio e um astronauta viciado em construir naves. O grande obstáculo, porém, será este fracassado herói  acreditar um pouco mais em si mesmo, acreditar ser especial, não porque a profecia diz, mas simplesmente porque ele é.


As grandes sacadas do roteiro já começam desde o início. No brinquedo Lego, as instruções sempre foram ignoradas, a criatividade de cada criança era o que dava vida, onde não havia limites, tudo era possível, e é assim como este filme flui até seu final, sem restrições, a cada nova cena, uma nova possibilidade. Genial é como descrevo sua introdução, a vida de Emmet e aquela triste sociedade vivendo sob regras, onde os adultos logo farão uma leve associação a obras como "1984" ou "O Show de Truman", porém, aqui não há o "Grande Irmão", há o Sr.Negócios, que grava cada passo, controla o universo e pretende acabar com tudo. Há um "Q" de brincar de Deus na história, e se toda a trama de Sr.Negócios não deixasse isso evidente, em seu final, que poderá causar um estranhamento para alguns, trás uma visão ainda mais ampla deste pensamento, é um universo dentro de um universo, "Uma Aventura Lego" é portanto, pura metalinguagem, um evento bastante curioso e ousado se tratando de uma animação aparentemente feito para crianças. As crianças, por sua vez, obviamente gostarão pelas cores e pelos personagens carismáticos, no entanto, por essas e outras razões vejo como uma obra extremamente adulta, tanto pela nostalgia do brinquedo que tinha um apelo mais forte há anos atrás, tanto pelas ideias filosóficas e pelas piadas e diálogos que remetem a cultura pop e necessitam de uma bagagem cultural que apenas os adultos e admiradores de todos esses universos descritos e reinventados pelo filme poderiam ter.

De Harry Potter a Star Wars, do velho oeste a um mundo cheio de cores e vibrações positivas. Ainda que exista uma lógica muito bem pensada e desenvolvida pelos roteiristas, o nonsense é o que guia esta obra, elementos surgem do nada, coisas aleatórias acontecem a cada instante e de fato, nada faz muito sentido e esta é a graça deste filme, ter a liberdade narrativa e criativa de criar algo tão novo, mesmo que bizarro, mas extremamente original. Tudo é uma nova chance de fazer uma piada, e as gags funcionam do começo ao fim, o humor é afiado e dos bons, fazia tempo que não via uma comédia tão escrachada e tão inteligente quanto esta, que finalmente faz rir e não apenas esboçar um sorriso tímido no canto da boca como todas as outras "comédias" que são lançadas. Somado a genialidade do humor, os diretores dão um excelente ritmo para a obra, que não cansa, diverte e empolga. A história até parece simples, mas ao ser analisada aos detalhes, podemos ver o quão brilhante ela é, os personagens são bem desenvolvidos pelo roteiro que também dá espaço para os ótimos coadjuvantes. O estúdio capricha também na animação e assim vemos cenas interessantes, onde tudo parece mesmo ter sido construído por peças de lego, dos incríveis cenários ao andar desengonçado dos personagens.

"Uma Aventura Lego" caminha exatamente como uma grande brincadeira de criança, onde nada é impossível, a trama vai crescendo de forma um tanto quanto absurda onde personagens sem nenhuma conexão aparente podem fazer parte de uma única jornada. Ao seu final, recebemos uma explicação lógica para tudo, muito bem pensado, por sinal, ainda que neste mesmo final os diretores pecam por suas escolhas, entregando cenas de gosto bastante duvidoso. Por fim, a obra tem como função recuperar esta relação de pai e filho e o quanto aquele momento de brincadeira pode ser fundamental para sua criação. Um final bastante sensível, que responde algumas questões e nos faz refletir sobre outras. Gostei, se destaca entre tantas animações que são lançadas, diverte facilmente por seu humor e ainda que de longe ele seja todo colorido e bizarro, é uma obra madura justamente pela ousadia em apostar no nonsense, por conseguir ser crítico ao descrever a sociedade e por construir sua trama através da metalinguagem, ganhando respeito por isso, as crianças não entenderão, mas o que vemos aqui é um filme sobre a infância, porém, feito para adultos. Recomendo.

NOTA: 8.5


País de origem: EUA
Duração: 100 minutos
Distribuidor: Warner Bros.
Elenco: Chris Pratt, Will Ferrell, Elizabeth Banks, Will Arnett
Diretor: Phil Lord, Chris Miller
Roteiro: Phil Lord, Chris Miller, Dan Hageman, Kevin Hageman


Um comentário:

  1. Uma história com muita imaginação, perfeito no gênero da animação. Pessoalmente, o personagem interpretado pelo ator Will Arnett, é o meu favorito. Não há dúvida de que o gênero de animação destaca-se como histórias originais como este.

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