terça-feira, 23 de outubro de 2012

Crítica: 50% (50/50)

Mais uma pérola do cinema indie norte-americano que vai direto para as locadoras aqui no Brasil, sem ter a chance de conquistar um público. Baseado em fatos reais, mais especificamente na história de como o escritor Will Reiser, o mesmo que roteirizou o filme, enfrentou seu câncer. A luta contra a doença mostrada de forma leve, descontraída, com muito humor e palavrões, mas sem deixar de ser comovente.

por Fernando Labanca

Joseph Gordon-Levitt interpreta Adam, saudável rapaz que certo dia descobre que tem câncer e que tem apenas 50% de chance de sobreviver. Tem apoio de sua namorada Rachel (Bryce Dallas Howard) mesmo mostrando nítido desconforto com a situação e ainda tem que aturar o descontrole de sua mãe (Anjelica Huston). Para piorar tudo, descobre que estava sendo traído por Rachel, através de seu grande e fiel amigo, Kyle (Seth Rogen), aquele que faz de tudo para levar vida e humor a sua rotina e ajuda a enfrentar as dificuldades de estar doente. Adam ainda passa a se encontrar com uma analista, Katherine (Anna Kendrick), iniciante na profissão, mas que logo percebe que seu cliente precisava muito mais do que termos técnicos.

O cinema indie tem como característica trazer leveza aos assuntos sérios, as definitivas comédias dramáticas, ou como alguns dizem, as dramédias. Foi assim com a gravidez na adolescência em "Juno" ou até mesmo a catástrofe do fim do universo no recente "Procura-se um Amigo Para o Fim do Mundo". Não há dor ou conflito que este gênero não possa trabalhar. A luta contra o câncer é a premissa da vez e o que de início pode parecer clichê, "50%" vai muito além do "fazer rir para não chorar", não dispensa o humor, muitas vezes politicamente incorreto e o que em muitos filmes a vítima sai chorando pelos corredores, aqui, o protagonista sai feliz com sua erva, jamais compreendendo a intensidade do problema. No melhor do estilo "Judd Apatow", mesmo que este não esteja envolvido no projeto, temos Seth Rogen representando a nova geração das comédias e tudo funciona bem e diverte. Inevitavelmente, o longa cai no drama, seria difícil fugir por completo, mas felizmente, este não é um problema, muito pelo contrário, é através do drama que o filme alcança seu ápice, é nele que conhecemos a fragilidade dos personagens, é quando o roteiro passa a humanizar cada um deles, é então que compreendemos a profundidade da obra e o quanto ela se difere das demais já lançadas. 


Mais do que a história de um jovem lutando contra uma doença, é sobre como sua doença altera a vida das pessoas ao seu redor, ou até mesmo como altera sua relação com elas. É bastante interessante a personagem vivida por Bryce Dallas Howard, apesar de pouco explorada, onde através da pena que sentia de Adam foi incapaz de magoá-lo, omitindo o fato de não gostar mais dele, como se não pudesse haver mais problemas em sua vida além do câncer. A relação que o mesmo tem com sua mãe é outro ponto alto do roteiro, o distanciamento que ele tem com ela, onde somente a doença foi capaz de uni-los. É belo também a história dos iniciantes, Adam que não sabe como viver sem saúde, que não sabe lidar com os obstáculos, que não é capaz nem mesmo de sofrer justamente por não compreender o que é ter câncer, no outro lado, temos Katherine, a analista, iniciante na profissão, que mal sabe cuidar de seu cliente, é então que ao decorrer da trama, um acaba percebendo o quanto precisa do outro, mais do que um cliente para cuidar, mais do que aprender, ela precisava sentir. São nestes momentos em que se comprova a qualidade do roteiro assinado pelo próprio Will Reiser, que consegue fugir dos clichês, fugir do dramalhão, mas sem deixar de ser complexo, profundo e emocionante.

Joseph Gordon-Levitt mais uma vez provando ser um grande ator, se destacando ainda mais nas cenas dramáticas. É divertido vê-lo atuando ao lado de Seth Rogen, a dupla funciona, por vezes, tudo parece um grande improviso como a excelente sequência em que Adam raspa cabeça, mesmo que Rogen não seja capaz de fazer nada mais além do que já mostrou em outros filmes. Anna Kendrick é uma querida, a película se torna ainda mais encantadora com sua performance, com aquele jeitinho único que só ela sabe fazer. Eis que ainda vemos na tela a veterana e sumida Anjelica Huston, em mais uma grande atuação, construindo algumas das melhores cenas. Enfim, elenco afiado interpretando personagens muito bem escritos, através de um roteiro bem elaborado que enche a tela de bons diálogos, que mistura humor e drama de maneira eficiente. De bônus uma incrível trilha sonora, não só a instrumental composta por Michael Giacchino, mas também a excelente seleção de músicas, entre algumas bem alternativas, ainda encontramos Radiohead e Pearl Jam. Perde alguns pontos por demorar a decolar, até a metade do longa, tudo parece um pouco perdido, mas logo se recupera e prova sua força e qualidade. Recomendo.

NOTA: 8,5



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