quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Crítica: As Aventuras de Pi (Life of Pi, 2012)

Ang Lee é aquele diretor que sempre se permitiu reinventar, já trabalhou diversos temas e já realizou bombas como "Hulk" (2003) ou grandes filmes como "O Segredo de Brokeback Mountain" (2005), no qual ganhou o Oscar de Melhor Diretor. Mas uma coisa é única na carreira deste veterano taiwanês, ele sempre nos surpreende e com "As Aventuras de Pi" ele vai além do que já realizou e alcança um nível onde pouquíssimos diretores ousaram chegar. Baseado na obra de Yann Martel, assistimos uma das mais belas obras do ano, com seu argumento bem planejado, repleto de simbologias e mistérios a seus impecáveis efeitos visuais, que diferente de qualquer outro 3D já feito, este, auxilia em sua história.

por Fernando Labanca

Piscine Patel, é um indiano que mora na parte francesa do país, vive com sua família, onde são donos de um zoológico. Seu nome significa "piscina" no vocabulário francês e desde criança era alvo de piadas devido a isso, mas força a todos o chamarem de "Pi", aquele que no alfabeto grego significa "razão". Tinha a mente aberta e por isso se deixou acreditar por diversas crenças e diferente de sua família, era guiado por sua fé, se denominava muçulmano, católico e hindu. Eis que seu pai decide partir para o Canadá e vender os animais, colocando toda sua família e os animais num grande navio, eles não esperavam, porém, uma grande tempestade, matando todos que estavam ali dentro, exceto Pi, um tigre bengala, um orangotango, uma zebra e uma hiena, que partem em um pequeno bote. É então que conhecemos a sua aventura, após perder todos aqueles que amava tenta sobreviviver em meio a natureza, buscando encontrar significados para tudo aquilo e redescobrindo o amor de Deus e os misteriosos caminhos que Ele o guia.


O filme se inicia com aquela introdução básica, o escritor a procura de uma boa história para contar, é então que ele se depara com Pi (Irrfan Khan), já adulto, decidido a contar sobre sua aventura, dizendo ainda que ao seu final o escritor e quem tivesse acesso a sua jornada passaria acreditar em Deus. Bem longe de ser um filme gospel, a obra de Ang Lee dispensa rótulos e por mais que fé e religião sejam muito discutidas na trama, são pequenos elementos de um plano bem maior. Também em nenhum momento aponta o que é certo e errado, só nos dá a todo instante argumentos para nossa própria reflexão. É exatamente isso o que "As Aventuras de Pi" é, reflexão. É daquelas raras obras onde se deve ver apenas com o coração e não tanto com os olhos, por mais que seu visual nos prenda, estão nas simbologias as respostas para tudo, se é que elas realmente existem e acredito que este seja o grande mérito deste filme, assistimos a tudo acreditando ser algo totalmente simples é então que em seu final compreendemos a grande brincadeira do roteiro, muito maior do que aparenta ser, muito mais reflexivo do que parece ser. Pequenos detalhes ao longo do filme, cada parte tendo sua função, nada está a li por mero acaso, repleto de símbolos e alegorias, a jornada de Pi pode surpreender muita gente que esperava encontrar apenas um visual 3D.

Um jovem indiano, um tigre, um barco e um imenso oceano. Basicamente é isso o que vemos na tela grande parte do filme. Lendo até parece algo impossível de se fazer, difícil imaginar como desenvolver uma história e prender a atenção do público apenas com esses elementos. É então que surge a grandiosidade e genialidade de Ang Lee, fazendo tudo isso ser possível e com uma qualidade indiscutível. A primeira parte, bastante didática pode parecer cansativa para muitos, no entanto é de extrema importância para o resto da aventura, mas é quando surge a tempestade e Pi se vê obrigado a partir com os quatro animais é que o filme ganha sua força. Tudo extremamente bem realizado, efeitos especiais que surpreendem pelo realismo, como o tigre bengala, onde não sabemos ao certo quando ele é real ou feito por CGI, além de seu estonteante visual, sendo um dos mais belos filmes a passar pelos cinemas este ano, é tudo muito mágico, bonito de se ver, paisagens fortes que ficarão na memória muito tempo depois do filme terminar. Ganha ainda mais pontos quando o incrível visual não tira o brilho de sua história, sendo ela que nos prende, mesmo que num cenário tão limitado, "As Aventuras de Pi" consegue falar sobre muita coisa, indo muito além do jovem tentando sobreviver, de Pi tentando adestrar o animal feroz, é uma longa jornada de autodescobertas, é sobre Deus, um tema quase que tabu para o cinema onde pouquíssimos roteiros tiveram a ousadia de por em discussão e surge desta vez sem hipocrisia e sem ofensas. É também sobre a relação do homem com a natureza, é belo a relação de Pi com o tigre, ele insiste em dizer que vê alma nos olhos do animal e não apenas sua alma refletida como dizia seu pai. É sobre perdas, onde em um dos momentos mais emocionante do filme, o jovem indiano sofre mais por ter perdido a quem amava do que por ter sobrevivido e como diz em certo momento que a vida é puro desafeto, vemos pessoas que amamos indo embora e jamais temos a chance de nos despedir. Mais do que tudo isso, é também sobre aquele antigo sentimento que nos dá força para lutar, a amizade.

Os atores que interpretam Pi ao decorrer de sua vida dão conta do recado. Se Irrfan Khan consegue passar aquela expressão de experiência e comoção diante de sua própria história, os pequenos atores convencem ao vivenciar as curiosidades de sua infância. Destaque ainda maior para o jovem Suraj Sharma que interpreta Pi a maior parte do tempo, em um papel nada fácil de se fazer, coloca sentimento, fúria, coragem, é através dele que enfrentamos esta aventura, ele que traduz o que se passa, e convence em cada momento, carregando o filme como um grande protagonista. Ainda encontramos o veterano Gérard Depardieu em uma pequena participação, mas bastante importante. Além do elenco, o longa ainda possui outros pontos positivos como sua belíssima fotografia, assinado pelo chileno Claudio Miranda, mais conhecido por seus trabalhos ao lado do diretor David Fincher, como "Benjamin Button" e "Zodíaco", além do fantasioso "Tron Legacy". É tudo extremamente belo o que vemos na tela, ganhando uma proporção ainda maior quando entra em cena a sensível trilha sonora de Mychael Danna. Enfim, um grande espetáculo visual e sonoro. 

Em um pensamento muito antigo, nós seres humanos, nos vemos presos entre dois únicos caminhos, o caminho do coração e o da razão. "As Aventuras de Pi", porém, nos oferece os dois caminhos, e esta é a grande genialidade da obra. O que vemos a todo instante é o coração falando, ao seu final conhecemos a razão, o roteiro então, nos oferece duas respostas, e nos deixa livres para fazer nossas escolhas, a história deixa de ser apenas de Pi, passa ser nossa também, nós escolhemos como contar, mais do que isso, nós escolhemos como interpretar tudo o que vimos. Ou seja, este texto acima nada mais é o que eu vi do filme, podendo ser diferente de qualquer outra pessoa. Este é Ang Lee, servindo o público com uma obra capaz de entreter, mas sem subestimar sua inteligência. Muito mais do que "visual", o que vemos é um trabalho de gênio, com um roteiro brilhante e surpreendente, surpreendente simplesmente por ser muito maior do que aparenta ser, uma obra complexa que nos oferece grandes reflexões. Um filme belo e único, uma das experiências mais fantásticas do cinema em 2012, onde até mesmo seu 3D faz a diferença. Memorável...recomendo!

NOTA: 9



sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Crítica: O Hobbit - Uma Jornada Inesperada (An Unexpected Journey, 2012)

Baseado em uma das obras literárias mais influentes do século passado, "O Hobbit" de J.R.R Tolkien, não poderia surgir nas telas pelas mãos de outra pessoa a não ser de Peter Jackson, diretor experiente neste universo, no qual também nos trouxe a trilogia "O Senhor dos Anéis". Retornando à Terra Média e a todos aqueles elementos clássicos que há onze anos já reunia inúmeros fãs pelo mundo, "Uma Jornada Inesperada", mesmo possuindo suas falhas, tem tudo para agradar os admiradores de Tolkien, mais do que isso, conquistar um novo público.

por Fernando Labanca

Nesta primeira parte da nova trilogia, reencontramos Bilbo Bolseiro (Iam Holm) decidido a contar a Frodo (Elijah Wood) sobre uma antiga aventura que vivenciou há longos anos atrás, quando mais jovem (interpretado por Martin Freeman). Bilbo, o Hobbit, é aquele ser que não troca nada pelo conforto de seu lar, que gosta de receber visitas e oferecer seu chá, que desconhece o mundo lá fora, mesmo que tenha descendentes aventureiros. Eis que certo dia, Gandalf (Iam McKellen), um mago, decide marcar uma visita, o que Bilbo não esperava é que além dele, aparece treze anões, prontos para uma grande jornada. Munidos apenas de um mapa, mantimentos e muita coragem, estavam em busca de um décimo quarto guerreiro, mais especificamente, de um ladrão e Bilbo fora o selecionado. O plano seria seguir para as Montanhas Solitárias e libertar o reino de Erebor, no qual o dragão Smaug mantinha um antigo tesouro que antes pertencia aos anões. Porém, nesta Campanha, acabam encontrando diversos obstáculos, entre eles, trolls, orcs e uma criatura sinistra chamada Gollum. 


"O Hobbit - Uma Jornada Inesperada" retorna aquele clássico universo já explorado na trilogia "O Senhor dos Anéis" e devido a isso já consegue agradar. É muita emoção ver tudo aquilo novamente, quando "O Retorno do Rei" chegou ao seu fim, parecia que jamais veríamos a Terra Média mais uma vez, eis que Peter Jackson, mesmo com tantos problemas na produção e no desenvolvimento deste antigo projeto, nos presenteia com este filme, nos fazendo rever aqueles personagens que tanto nos afeiçoamos como Gandalf e Gollum, entre outros, além de toda aquela paisagem e também a trilha sonora mais uma vez assinada por Howard Shore, nos dá aquele sentimento de "estamos de volta". Por um lado isso é ótimo, por outro, Jackson, de fato, não inova em muita coisa, além dos efeitos especiais extremamente bem feitos que chocam pela perfeição, não há nada de novo em "O Hobbit", onde o diretor não arrisca, seguindo a mesma fórmula de seu sucesso, ainda que tenha uma trama tratada de forma muito mais infantil e mais didática.

Um detalhe que antes mesmo de ver o filme já me incomodava era o fato de terem a grandio$a ideia de fazer uma nova trilogia, mesmo sendo nítido que não havia conteúdo para tanto. Assistindo ao longa, não me convenceram de que eu estava errado, pois de fato, não há muito a ser contado e enquanto que em "O Senhor dos Anéis" tudo era resumido para se ter tempo de contar tudo, aqui, eles aplicam o inverso, prolongam o que não há, detalham o que não existe, em longas 2 horas e 49 minutos. Extremamente desnecessário, poderiam ter cortado muitas coisas, cenas que não haviam no livro e que nada acrescentam na trama, como a aparição do Mago Radagast, o guardião da floresta, que surge do nada e desaparece do nada, e a sequência da luta entre as rochas, muito bem feita, aliás, mas inútil ou o "vilão" Azog, criado apenas para se ter mais o que filmar. Além de uma necessidade que o roteiro tem de tentar criar um link com a trilogia anterior, somando passagens que nada alteram neste filme, como a presença de Frodo, Saruman e Galadriel, mesmo que na trama ainda há um propósito para suas aparições, se retiradas, não fariam falta. É inegável, porém, que o roteiro, também assinado por Jackson, ao lado de Guillermo Del Toro, Philippa Boyens e Fran Walsh, acertam na adaptação, tudo o que há no livro há no filme (não que isso seja necessário para uma adaptação), claro que uma coisa ou outra são modificadas, mas são extremamente fiéis à obra original, diria que respeitam e muito o que Tolkien fez. No entanto, é neste mesmo roteiro o ponto mais fraco do filme, prolongando o desnecessário, tudo para se ter um filme de três horas, sendo que não há um porquê para isso e nada aqui justifica a criação de uma trilogia.

O roteiro também peca ao tentar romantizar demais toda esta jornada, dando espaço para frases prontas e clichês relacionados à honra, coragem e bondade, tudo o que o cinemão de Hollywood sempre fez questão de fazer em filmes do gênero. As cenas de ação são incrivelmente bem trabalhadas, em questão de efeitos especiais, no entanto tudo surge de forma um pouco confusa, como a batalha dos anões com os orcs ou a chegada dos lobos nas montanhas. A aventura perde ainda mais pontos quando tudo é resolvido da mesma forma, a chegada triunfal de Gandalf, que desaparece e do nada sempre surge para salvá-los. Tudo bem que no livro já era assim, mas no cinema isso parece ser ainda mais desinteressante. Porém, vale citar também a bela introdução da invasão de Smaug em Erebor, um dos grandes momentos do filme, além, é claro a presença de Gollum e as expressões fantásticas de Andy Serkis.

O ponto alto desta jornada definitivamente é o carismático elenco. Não consigo imaginar outro ator a interpretar o jovem Bilbo além de Martin Freeman, ele é o que há de melhor em "O Hobbit", expressivo, engraçado, um ator talentoso que facilmente conquista nossa empatia, torcemos por sua aventura, onde mais do que encontrar o ouro de Smaug, precisava se provar competente para isso, o nascimento de um grande guerreiro. Ian Mckellen é Gandalf, ponto. A surpresa fica por conta de Richard Armitage, que interpreta o anão Thorin, definitivamente, uma revelação. Do restante, todos ótimos. Além das atuações, o filme tem outros grandes méritos como a trilha sonora que trás temas bem marcantes ao longo da aventura, os efeitos, tanto especiais como sonoros, e cenários, fotografia e figurinos que provam um cuidado de toda a produção para com este projeto. 

Por fim, "O Hobbit - Uma Jornada Inesperada" peca pelo exagero, por estender no que não precisava, colocando diálogos, sequências, personagens que nada alteram a história. Já superei o fato de haver uma trilogia, mas é difícil enfrentar as quase três horas de filme da primeira parte, apenas. O filme acaba e diferente da trilogia, não há nenhum grande momento, aquele que fica na memória e faz o longa ter valido a pena. No mais, um filme de aventura eficiente, repleto de defeitos, mas consegue, no mínimo, agradar, tem capacidade também de conquistar um novo público. É divertido, tem bom humor e grande parte das piadas funcionam, os personagens são bons e são por eles que conseguimos enfrentar estes longos minutos de duração. Acredito que "O Hobbit" tenha belas intenções por trás de suas falhas como cinema, a trajetória de Bilbo, por mais sutil que seja, emociona, todos sabem sobre suas deficiências, todos apontam sobre tudo aquilo que ele é incapaz de fazer, e o mundo é assim, repleto de pessoas que nos farão menores do que somos e esta aventura que surge em sua porta é a chance de se provar grandioso, provar que é capaz mesmo quando todos dizem que ele não é. De longe, não é o melhor de Peter Jackson e pouco se compara à saga do Anel, espero que as próximas partes tenham o conteúdo como prioridade, não seu faturamento. 

NOTA: 7




segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Crítica: 2 Coelhos (2012)

Sei que muitas pessoas já desejaram ver um filme nacional como este. Grandioso, com efeitos especiais, muitas cenas de ação, muito barulho e explosões. Ainda que carregue em si, um tom crítico, muito comum no cinema do Brasil, "2 Coelhos" é entretenimento puro, claramente inspirado nas grandes produções hollywoodianas e que não deixa nada a desejar a concorrência, e diferente da fonte em que bebe, ainda consegue, acima de tudo, trazer conteúdo, com muito estilo e inteligência.

por Fernando Labanca

Edgar (Fernando Alves Pinto) é um cara que vive na cidade de São Paulo e tem sua vida alterada quando, em um acidente de carro, mata uma mulher e seu filho. Devido a grande influência de um deputado, consegue se livrar da prisão e assim, passa uma temporada em Miami e quando retorna, depois de dois anos, decide por em prática seu elaborado plano e como em nenhum momento em sua vida, agora tinha uma missão a ser cumprida, tinha um porquê de estar vivo. Com uma bomba que funciona através de um sensor de proximidade, Edgar arquiteta toda uma estratégia, envolvendo diversas pessoas, em diversas situações, para um único propósito, matar dois coelhos em uma cajadada só, eliminando o deputado que o salvou, símbolo do falho sistema de justiça, e também um criminoso, Maicon (Marat Descartes), que sempre escapou da prisão devido ao suborno de políticos influentes. E para este plano, também entra em ação, Julia (Alessandra Negrini), uma promotora pública que possui informações necessárias e que é uma peça fundamental para todo o quebra-cabeça.


Quem assistir "2 Coelhos" estará diante de muitas inovações, no que diz respeito ao cinema nacional. O diretor Afonso Poyart, por incrível que pareça, seu primeiro longa-metragem, oferece ao público um leque de surpresas, de animações 3D, efeitos especiais extremamente bem-feitos, explosões, e referências a cultura pop e nerd, tudo o que raramente vimos por aqui e de forma tão competente. Chega até ser estranho ver atores brasileiros em meio a todas essas intervenções e cenários, como a cidade de São Paulo ser palco de sequências eletrizantes, deixando qualquer produção estrangeira no chinelo. É estranho, mas ao mesmo tempo, prazeroso, dá aquele orgulho de ver um cinema nacional, mesmo que feito para a massa, ter tantas qualidades, e mesmo diante de tantos efeitos, oferece ainda conteúdo, uma história bem contada, um roteiro bem planejado, cheio de reviravoltas e um final surpreendente, e tudo isso exposto para as telas pelas mãos de um novato, mas extremamente talentoso diretor, que acerta ao buscar referências lá fora, acerta mais ainda, por superá-las. 

O melhor deste filme é que mesmo tendo tantas inovações visuais, não as tem como única coisa boa a oferecer, percebemos isso quando nos sentimos fortemente atraídos pela história, pelo louco plano do protagonista, onde aos poucos um complexo quebra-cabeça vai sendo montado. Como Edgar mesmo diz em certo momento, "Ás vezes, a gente precisa se distanciar do papel para enxergar o desenho todo, com mais clareza". O roteiro assinado também por Poyart, aposta nesta premissa, e nós, como público, precisamos estar atento a cada informação mostrada, e tentarmos a cada passo das situações, enxergar com uma certa distância os fatos para tentarmos entender os porquês, como se um segundo filme acontecesse em nossa mente, logo que os acontecimentos são narrados em ordem não cronológica, opção que faz desta ideia algo muito mais interessante. Um ponto crucial é nos dado, a morte da família e este momento vai sendo reprisado durante a trama, no entanto, a cada vez que a vimos nos é apresentado um outro ponto de vista e quanto mais repertório temos sobre aquele universo de Edgar, enxergamos aquele momento com outros olhos. O roteiro brinca sabiamente com essas jogadas, se aproximando e se afastando dos acontecimentos e a cada novo looping, vemos tudo de forma diferente, até chegarmos ao seu final, quando tudo faz sentido e não há como não se emocionar com o resultado final. O bom roteiro também sabe brincar com seus personagens, tudo funciona quase como um tabuleiro de xadrez, cada um tem sua função muito bem definida, no entanto, demoramos a entender exatamente quais são elas e até este momento de revelação, nunca sabemos os planos de cada um e de que lado eles estão. Enfim, uma trama surpreendente, onde cada passo é uma surpresa, surpresas que de fato, são muito agradáveis. 

Fernando Alves Pinto tem uma longa carreira como ator, principalmente nos cinemas, mas infelizmente nunca teve seu reconhecimento a até hoje passa despercebido pelo público. Este, com certeza, foi um de seus maiores projetos, espero que o reconhecimento chegue. Parece entender a loucura de seu personagem, convence e encara bem o filme como protagonista. Alessandra Negrini também surpreende ao abandonar os trejeitos televisivos para encarnar a mocinha no cinema, não se mostra perdida a todas as intervenções visuais e prova ter sido uma boa escolha para o papel. Os coadjuvantes são ótimos, Caco Ciocler, que emociona com seu frágil personagem, Marat Descartes que rouba a cena com seu vilão, além do carisma de Thaíde, Neco Villa Lobos e Robson Nunes. 

Por trás da violência, dos palavrões, que claro, não poderiam faltar se tratando de um filme de ação nacional, "2 Coelhos" é repleto de boas intenções, que dá uma volta em seu louco, complexo, divertido e inteligente roteiro para chegar a um final surpreendente, que agrada, que emociona, que nos faz sentir que toda aquela viagem valeu muito a pena. Um filme que se admite ser feito para entreter, é feito para a massa e isso em nenhum momento o diminui, muito pelo contrário, é entretenimento de qualidade, que abusa de efeitos especiais para contar uma boa história, o que já é muito raro, e ainda mais no Brasil, mais raro ainda, é tipo o que Michael Bay jamais conseguiu fazer lá fora e Afonso Poyart conseguiu em seu primeiro filme. Excelente roteiro, excelente diretor, excelentes atores. Para completar, ainda nos deparamos com uma bela fotografia, uma edição dinâmica e bem feita e uma incrível trilha sonora, assinada por André Abujamra e Marcio Nigro, de nacionais como Matanza e Lenine às internacionais de Radiohead, emocionando com sua "Exit Music" e 30 Seconds to Mars e seu clássico "Kings and Queens", muito bem inseridas nas cenas. Em suma, "2 Coelhos" representa o Brasil muito bem, diverte e entretém de forma bastante eficiente. Recomendo. E muito. 

NOTA: 9




terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Crítica: Curvas da Vida (Trouble With the Curve, 2012)

Fugindo um pouco a regra, Clint Eastwood, depois de muitos anos, surge nos cinemas como protagonista de um filme no qual não dirige. Comandado por Robert Lorenz, que por sua vez, foi diretor assistente de alguns filmes de Clint, como "Menina de Ouro" e "Sobre Meninos e Lobos", aparece interpretando o papel que sabe fazer de melhor, o velho durão e ranzinza, ao lado da sempre adorável Amy Adams e do promissor Justin Timberlake.

por Fernando Labanca

Eastwood interpreta Gus Lobel, um veterano olheiro do baseball, que trabalha para um importante time buscando novos talentos, mas se recusa a se inserir nas novas tendências de mercado, onde um computador é capaz de realizar seu trabalho, ele ainda aposta em seu feeling, o que acaba incomodando algumas pessoas com quem trabalha. Para piorar, começa a ter problemas com sua visão, mas é incapaz de abandonar seu posto, jamais aceitando que a idade chegou. Para impedir que Gus seja descartado, Pete (John Goodman), um antigo amigo, pede ajuda de Mickey (Amy Adams), filha do veterano. Mickey, porém, é uma advogada de sucesso prestes a dar um grandioso passo em sua carreira, mas decide abandonar tudo para reencontrar seu pai, a fim de preencher o abismo existente entre eles, mais do que ajudá-lo, queria enfim compreender o porquê de ter sido abandonada. 


"Curvas da Vida", por certas vezes, até parece um filme dirigido pelo próprio Clint. Claro que vê-lo em cena por si só, já dá esta sensação, entretanto, é nítido que Lorenz aprendeu e muito com o veterano. A fotografia também ajuda, as imagens que vemos é puramente "eastwood" e o ator, por sua vez, parece reviver seu papel de Gran Torino, por, obviamente se sentir a vontade neste tipo de interpretação, mas também pela falta de inovação em sua performance. No entanto, este longa, ainda assim, é um projeto menor, de pequenas ideias, tem história fácil, onde tudo é muito correto, bem desenvolvido, mas é tudo muito previsível. O roteiro assinado pelo novato Randy Brown erra ao caminhar por caminhos já percorridos, criando personagens já escritos e finalizando sua trama de forma já concluída. No entanto, é válido citar que ainda há seus acertos, como alguns diálogos que divertem pelo humor sutil, mas eficiente e também por aqueles momentos de emoção fácil, tudo, é claro, ajudado pelo grande elenco que faz desta obra um projeto muito maior do que deveria ser.

A previsibilidade da obra tem grande culpa pelo tanto de estereótipos que o roteiro insiste em personificar. O veterano durão e teimoso, que sempre opta pelos velhos modos, onde parece não haver oscilações em sua personalidade, ele é isso e ponto. E quando já conhecemos nosso "herói" toda a trama só poderia caminhar por um caminho e é exatamente isso o que acontece, seu reencontro com a filha diverte e por vezes, emociona, mas é tudo muito previsível, quando já no início sabemos como este conflito se resolveria. A presença de Johnny, interpretado por Justin Timberlake, trás bons momentos e sua relação com Mickey também é bastante óbvia, apesar de adorável. O estereótipo continua com o personagem secundário Bo Gentry, um jogador de baseball, metido a machão, onde o roteiro parece querer ter a certeza que nós, como público, vamos odiá-lo, não há nada de bom em sua personalidade, tudo porque para se ter um final feliz ele teria que ser insuportável, mas acabam criando um personagem patético e totalmente fora da realidade e com todo o seu desenvolvimento, o roteiro prova sua fragilidade e imaturidade também, assim como a presença de Matthew Lillard, feito para torcemos contra. 

No entanto, no meio de tantos erros, nos afeiçoamos a este trio de protagonistas. Apesar de previsível, a relação entre pai e filha é bem trabalhada. Fantasmas do passado que aos poucos vão sendo revelados, sentimentos presos durante anos que aos poucos vão sendo explorados. Em pequenos detalhes, ainda é possível enxergar alguma riqueza nesses dois personagens. Mickey que abandona todo seu sucesso para reviver o passado, compreendendo que seu futuro nada valeria sem descobrir as incógnitas daquilo que ficou para trás. É belo quando percebemos que o destino dos dois foi traçado por aquilo que ocorreu no passado, ou devido aquilo que não ocorreu. Mickey que sempre lutou para ser a melhor em sua profissão, tentando provar para o pai que ela poderia ser incrível e que ele estava errado em abandoná-la. E Gus que preferiu abandonar sua filha ao perceber que nunca seria capaz de protegê-la. E no meio disto, surge Johnny, que devido a um problema nos braços, precisou abandonar sua carreira e por pura ironia do destino precisou traçar um outro plano, diferente daquilo que ele realmente desejava. São nessas reflexões que compreendo o título do filme, que para muitos é ruim, no entanto eu vejo um sentido. As curvas da vida, aquela manobra que o destino dá, sem aviso prévio, e que faz nossas vidas mudarem completamente. O que teria sido de Johnny se tivesse uma saúde perfeita? Teria ele realizado seu sonho? O que teria sido de Mickey se tivesse sido amada pelo próprio pai, logo que este desafeto a guiou para todas as suas realizações? O que teria sido dos dois sem aquele incidente do passado? Teriam sido felizes? Respostas que o tempo jamais responderá, problemas que surgiram destas curvas e tiveram que aceitar.

"Curvas da Vida" tem em seu elenco seu grande mérito. Clint Eastwood que apesar de já ter feito este papel, temos que admitir que ele faz muito bem, convence e sabe emocionar quando precisa. Justin Timberlake, como disse anteriormente, é um ator promissor, por mais difícil que seja confessar isso, o cara tem talento, tem carisma e ao lado de Adams, com quem tem uma deliciosa química, realiza cenas adoráveis, apaixonantes e salvam grande parte do filme. Já Amy Adams é quem realmente rouba a cena, é muito fácil dizer que este filme não seria nada sem esta grande atriz, ela brilha, encanta, tem carisma de sobra, seu sorriso parece nos fazer esquecer de tudo e quando encara uma cena dramática prova toda sua potência, dá o melhor de si, é belíssimo o que Adam realiza aqui, é definitivamente o grande destaque da obra e é por ela que tudo isso vale a pena. Ainda temos John Goodman, sempre ótimo.

Um filme pequeno, de poucas ideias e quase nada de inovação, mas que se salva por seus atores. No entanto, apesar de seus inúmeros clichês e estereótipos, "Curvas da Vida" é um filme que merece ser visto, jamais descartado, tem boas intenções, há boas cenas, bons diálogos e um trio de protagonistas que nos envolvem por mais que já conhecemos suas respectivas jornadas. Da comédia sutil, do romance ao drama familiar, tudo é bastante adorável, diverte como deve divertir e emociona na dose certa, sem apelações. Claro que é um filme de atuações, seu elenco é maior que o próprio projeto e já me utilizando de um antigo clichê, "dentro de sua proposta funciona", e posso dizer, que funciona muito bem. Para sair da sala de cinema com um sorriso no rosto e bem consigo mesmo. Tem seus erros, mas se mantém a todo tempo acima da média. Recomendo, mas não crie grandes expectativas.

NOTA: 7,5