sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Crítica: Drive (Drive, 2011)

Vencedor do prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes em 2011, Drive fora baseado no livro de James Sallis, sendo que sua versão nos cinemas parece funcionar ainda melhor devido a grande direção do dinamarquês Nicolas Winding Refn, que conseguiu transformar uma história tão simples em um filme extremamente interessante e estiloso.

por Fernando Labanca

Ryan Gosling interpreta um misterioso homem, trabalha como dublê em filmes de ação e para isso conta sempre com a ajuda de seu fiel agente Shannon (Bryan Cranston), onde juntos trabalham em uma oficina mecânica. Entretanto, o piloto age fora da legalidade nas horas vagas, dirigindo seu carro pelas perigosas ruas de uma cidade, buscando bandidos, os ajudando a fugir da policia, sem nunca se envolver com os roubos, respeitando sempre seu código de ética. Eis que ele acaba conhecendo sua vizinha, Irene (Carey Mulligan), e ao lado dela e deu pequeno filho, acaba construindo um elo no qual não estava em seus planos, no entanto, tudo foge realmente do controle, quando o ex-marido dela (Oscar Isaac) retorna da prisão precisando de ajuda para resolver os assuntos do passado. O piloto passa a ajudá-lo, mas aos poucos vai percebendo que o plano é muito mais complicado do que parecia, mas ele se mostra disposto a sujar suas mãos de sangue para salvar a família, para salvar a mulher que passou a amar.


"Diga-me onde começamos e onde vamos depois. Eu te dou cinco minutos depois que chegarmos lá. Estou a sua disposição nesses cinco minutos, haja o que houver. Após os cinco minutos, está por sua conta. Eu não participo do roubo e não porto armas. Eu dirijo!". É assim, que nosso protagonista sempre se apresenta, esta é sua função e é apenas isso o que ele faz. É interessante este "código" no qual ele mesmo inventou e ele o respeita com seriedade, sem nenhuma relação com os bandidos, sem nunca falhar. A trama ganha fôlego, porém, quando este seu código é alterado, quando ele passa a se envolver com as vítimas e quando já não é mais dono do plano. "Drive" nos mostra com maestria todo o processo deste misterioso homem, quando tudo vai fugindo do controle é quando então vamos conhecendo o que havia por trás do dublê ou do piloto, a verdadeira saga do herói, ou do vilão, tudo depende do ponto de vista. É interessante visualizar toda sua jornada, onde em poucos minutos de duração, o roteiro nos revela sua transformação, onde enfim o protagonista ganha uma vida de ação real, não aquelas que força diante da câmera, onde enfim ele descobre o que é uma relação, o que é amar, quando seus planos deixam de ser apenas por cinco meros minutos, passam a ser uma questão de honra, questão de querer proteger a quem ama.

A história do livro "Drive" é extremamente simples, mas se diferencia dos demais pela escrita de James Sallis onde conta a história em ordem não cronológica. O roteiro do filme ficou por conta do iraniano Hossein Amini, que realiza uma grande adaptação, alterando inúmeros elementos, optando por uma trama cronologicamente correta, não contando, porém, a infância do protagonista e dando mais espaço para os coadjuvantes, item, aliás, que fez bem para obra, caso contrário, personagens como Irene seria inútil e Carey Muligan não daria o ar de sua graça. Mas o que faz do filme ser ainda melhor que o livro é sem sombra de dúvida a direção de Nicolas Winding Refn. Parece até uma comparação injusta, mas a obra original não inova em muitas coisas, a história é simples e facilmente esquecida, bem diferente de sua versão no cinema, onde o diretor conseguiu contruir mais do que um longa visualmente belo, deu alma para a história, lhe deu personalidade, "Drive" é muito mais que um filme de ação e romance, é uma obra memorável, repleto de incríveis momentos, cenas tão bem realizadas, tão bem arquitetadas, detalhes que fazem deste filme um marco. O que dizer da já antológica cena no elevador? Ou das belíssimas cenas de perseguição? Com bom uso da câmera lenta, violência à la Cronemberg, que acaba nos pegando de surpresa, fotografia impecável, cenas milimetricamente bem pensadas, um conjunto de elementos que só enaltecem o que poderia ser um filme qualquer com uma história qualquer, Refn prova que uma pequena ideia pode virar um grandioso filme. A trilha sonora também faz sua parte, assinada por Cliff Martinez, com canções pop e uma pegada dos anos 80.

Falar bem de Ryan Gosling é chover no molhado, é um cara talentoso, realiza grandes cenas, e mesmo com um personagem que pouco fala, consegue dizer muitas coisas com seu forte e intenso olhar. Carey Mulligan mostrando mais uma vez seu carisma, leva brilho e beleza ao longa, trás uma deliciosa naturalidade que poucas atrizes conseguem, enfim, é de fato uma das melhores de sua geração. Drive ainda nos presenteia com grandes coadjuvantes como Bryan Cranston, sempre magnífico, Albert Brooks, Ron Perlman, Christina Hendricks e Oscar Issac. Um elenco fantástico que surge através de um incrível roteiro, com uma trama que nos deixa vidrado, hipnotizados durante todos seus 100 minutos, com pouquíssimos diálogos mas que ainda transmite muitos sentimentos, ainda consegue ser impactante. Do figurino à trilha sonora, do roteiro à direção, do visual ao bom conteúdo, raríssimos filmes conseguem o equilíbrio perfeito de tudo isso, "Drive" é um cinema raro, muito mais do que isso, é um filme que tem personalidade, tem estilo, estilo que poderá servir de referência aos próximos que virão.

NOTA: 9,5



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