quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Crítica: Garota Exemplar (Gone Girl, 2014)

Produzido por Reese Witherspoon e baseado no livro de Gillian Flynn, que também assina o roteiro, "Garota Exemplar" é mais um interessante trabalho do diretor David Fincher, que constrói um suspense inteligente, intrigante e surpreendente, onde ninguém sairá ileso da sessão.

por Fernando Labanca

Nome por trás de obras como "Clube da Luta" e "Seven", David Fincher tem trilhado um caminho admirável em Hollywood, e nos últimos anos tem se especializado no suspense investigativo, onde o diretor parece ter se "encontrado" no gênero. E seguindo quase como uma fórmula, o diretor resgata boas ideias da literatura e as adapta de uma forma muito única na tela. Ainda que suas obras sejam muito distintas, todas parecem seguir o mesmo intuito. "Zodíaco", "A Rede Social", "Millennium" e agora este, "Garota Exemplar", todos tem uma investigação como premissa, seja do paradeiro de um serial killer, seja a investigação por trás do sucesso - ou fracasso pessoal - do criador do facebook. Cada um, a sua maneira, Fincher usa da investigação, do suspense, do mistério, para revelar a complexidade da mente humana, ele nem sempre está interessado nos eventos ou consequências, seu interesse maior está naquele que age, no suspeito, na vitima, seja na mente por trás de um crime, seja na mente por trás de uma criação.

É assim que "Garota Exemplar" começa. O marido, enquanto acaricia sua amada esposa, se pergunta o que há em sua mente e se mostra disposto a fazer de tudo para compreender o que há naquele olhar e no silêncio que nada revela. Amy Dunne, interpretada por Rosamund Pike, é uma das personagens mais enigmáticas que Fincher já trouxe para os cinemas e o mistério do que há por trás desta mulher é o que guia a trama, é o que nos prende neste ótimo suspense, longo, mas que provavelmente você não sentirá os minutos passarem.


Amy, quando criança, tivera sua infância exposta pelos pais que escreviam livros sobre seu comportamento, sobre sua vida. Adulta e também escritora, ela acaba conhecendo em uma festa Nick (Ben Affleck), homem bem-humorado e inteligente que a faz viver aquele romance digno de ser visto na TV. Os anos passaram e no aniversário de cinco anos de casados, quando Nick retorna para casa, percebe que Amy está desaparecida, onde vestígios deixados na sala deixam claro que antes, ela fora violentada. O caso, porém, acaba tendo uma repercussão estrondosa, os vizinhos passam a ajudar na procura, policiais se esforçam para compreender o que houve e a mídia transforma o ocorrido na sensação do momento. Tudo piora com o comportamento estranho de Nick diante dos holofotes, é então que ele passa a ser o suspeito número um pelo desaparecimento de sua própria esposa.

O roteiro, logo em seu início, já nos instiga. Sabiamente, o filme intercala as investigações com relatos, escritos por Amy, sobre seu casamento, é então, que aquele pequeno caso de desaparecimento ganha contornos mais complexos, onde aos poucos vamos conhecendo quem é Nick, já que a dúvida que paira sobre ele ser o culpado passa a ser a mesma dúvida na mente do público. Queremos saber também quem é Amy, o que há por trás de sua tristeza, de seu rancor, seria realmente um sequestro? Seria um assassinato? Nick teria razões para isso? São tantas questões que rondam nossa mente enquanto assistimos a "Garota Exemplar" e este é o grande mérito do novo trabalho de Fincher, nos colocar para dentro da trama, nos fazer questionar, nos fazer ter dúvidas sobre cada personagem, nunca sabemos quem eles realmente são e o que são capazes de fazer, cada passo é uma nova surpresa. Há muita ambiguidade em Nick e Amy e este é o maior mistério e também a maior beleza da obra.

Ás vezes, costumo esquecer algumas histórias, alguns filmes, no entanto, o que sempre fica em mim é a sensação que tive ao final de cada um, talvez este seja o maior parâmetro para saber se gostei ou não. Desde o começo achei "Garota Exemplar" fascinante, ao seu fim, não saí vibrando da sala é então que comecei minha própria investigação: O que faltou neste filme? Minhas expectativas eram altíssimas e a crítica especializada me fez acreditar que este seria um marco. Não, não é. Algo que gostei muito do longa foi o fato das surpresas não ficarem tudo para o final, como deduzi pelo trailer, muito antes, grandes revelações surgem e é aí que senti um problema. Enquanto a obra se manteve na ambiguidade, no mistério, tudo era realmente fascinante, assim que as dúvidas vão sendo reveladas parece que algo se perde, senti que fui, aos poucos, sendo afastado da trama, desacreditando do que estava vendo. Tive a sensação de que o próprio filme cria em nós uma grande expectativa e em seu final não consegue alimentá-las, parece não ter um argumento tão forte ou convincente o bastante para suas conclusões. Outro grande problema foi seu roteiro, bastante descuidado em alguns detalhes, algumas saídas soam patéticas diante de furos tão óbvios e isso passa a incomodar, como disse, me fez desacreditar na trama ao compreender que muitas ações poderiam ter sido evitadas. De fato, o filme trilha por caminhos interessantes, mas ao ser analisado a fundo, tudo perde seu sentido, sua lógica.


"Garota Exemplar", por trás do suspense, faz uma crítica bem sarcásticas sobre a mídia, sobre como pequenos casos como este surgem nos canais de comunicação e se tornam assuntos do dia pra noite, se tornam temas de debates e colocam as "vítimas" como sendo personagens qualquer de uma novela diária, são livres para fazer especulações e fazer da desgraça alheia seu mais lucrativo propósito. Me admira e muito a maneira como isso foi pautado no filme, a importância que a mídia tem sobre a resolução do caso do desaparecimento. Passa a ser, surpreendentemente, até engraçado, as entrevistas, os programas, o exagero, a falsidade, é bem pertinente a maneira como é inserido o humor nos diálogos, como o roteiro tem o dom de fazer piada de tudo isso, como ele mesmo compreende o quão bizarro é todo este circo que é armado.

Rosamund Pike será, finalmente, um nome a ser notado. A atriz agarra sua personagem com força, seu olhar, seu tom de voz, suas expressões, uma interpretação magnífica que fez de Amy Dunne uma das personagens mais marcantes do ano. Ainda não sei o que dizer de Ben Affleck como ator, é apenas mais um papel que ele não decepciona, por outro lado, em nenhum momento prova ter sido a melhor escolha para viver o protagonista. Dentre os coadjuvantes, nomes bem inusitados, mais conhecidos na TV como Neil Patrick Harris, Tyler Perry e Kim Dickens, todos ótimos. Destaque entre eles, Carrie Coon, interpretando a irmã de Nick, é uma revelação, roubou as cenas em que esteve presente. Vale citar também, entre os pontos positivos, a excelente edição e a incrível trilha sonora, marcando mais uma excelente parceria entre Fincher e os músicos Trent Reznor e Atticus Ross.

Apesar das notáveis falhas, "Garota Exemplar" já entra para a lista dos filmes imperdíveis de 2014, onde sua história irá permanecer ainda por muito tempo na mente depois da sessão, ficamos remoendo e tentando digerir tudo o que nos foi mostrado. É interessante o jogo proposto pela obra, parece estar a todo instante desafiando seu público, nos manipulando, nos enganando, sem jamais se render aos clichês. Além de satirizar os meios de comunicação, vemos aqui também uma inteligente sátira ao casamento e suas nuances, suas dificuldades, de pessoas que se limitam a ser aquilo que o outro deseja. "Gone Girl" é principalmente sobre ter a vida exposta, muito mais do que o sensacionalismo que a mídia expõe, é sobre esta exposição voluntária, desta nova sociedade que se vende, que se dispõe como um modelo a ser seguido, seres exemplares, que sabem como viver, se divertir e obter sucesso na vida, é sobre esta falsidade de uma rotina que jamais existiu, até porque a vida que vendemos nunca é como a que realmente temos. Impactante, tenso e surpreendentemente divertido, que não é tão espetacular como tem se falado, mas que é, ainda assim, um filme poderoso. Recomendo.

NOTA: 8




País de origem: EUA
Duração: 148 minutos
Distribuidor: Fox Filmes
Elenco: Ben Affleck, Rosamund Pike, Carrie Coon, Neil Patrick Harris, Kim Dickens, Tyler Perry, Missi Pyle
Diretor: David Fincher
Roteiro: Gillian Flynn


Um comentário:

  1. Interpretar este drama parece fácil nem é. Para começar, deixe-me dissipar qualquer dúvida sobre Ben Affleck aqui é excelente. Você deve ser sóbrio quando sutil e pode resumir em um gesto seus pensamentos mais íntimos. E o que dizer Rosamund Pike, uma atriz sem maneirismos, rotunda, que resolve cenas vertiginosas com facilidade e então alguns.

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