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sábado, 23 de fevereiro de 2013

Crítica: Os Miseráveis (Les Misérables, 2012)

Mais um indicado na categoria Melhor Filme no Oscar 2013, "Os Miseráveis" é uma adaptação do musical da Broadway baseada na clássica obra de Victor Hugo. Com direção de Tom Hooper (O Discurso do Rei), o filme acompanha, através de canções, o drama de diversos personagens durante a Revolução Francesa. Com visual impecável, vemos um bom momento na carreira de Hugh Jackman e Anne Hathaway.

por Fernando Labanca

Revolução Francesa, século XIX. Conhecemos a miséria de Jean Valjean (Jackman) que por roubar um pão vai preso, no entanto, ao ganhar sua liberdade, passa a ser perseguido pelo policial Javert (Russell Crowe). Anos depois, com outra identidade e uma nova vida, Jean se depara com a miséria de Fantine (Hathaway), uma mulher que entrega seu corpo e sua alma para ganhar dinheiro e assim sustentar sua pequena filha, Cosette, que por sua vez, vive com os trambiqueiros Thénardier (Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen). Com a promessa de salvar a garota, Jean inicia um novo rumo a sua vida, amando e cuidando de Cosette, que muito tempo depois, já crescida (Amanda Seyfried), se apaixona por um revolucionário (Eddie Redmayne), que tem seu coração dividido entre a paixão pela bela moça e a luta em nome de sua nação.

Apesar de ser uma grande produção, "Os Miseráveis" pode muito bem ser considerado um filme experimental, isso porque a ousadia de Tom Hooper coloca seus atores cantando ao vivo nas gravações, dando maior realismo para suas expressões, mostrando uma força e coragem de um elenco que poucas vezes se viu em um musical. Aliás, fazia muito tempo que não víamos um musical tão grandioso como este, talvez, desde "Chicago". É tudo muito grande, o esforço nítido dos atores, a composição dos cenários, o cuidado com os figurinos e com todo o visual que surge em perfeito estado. Tom Hooper, por sua vez, parece querer levar ao pé da letra a adaptação teatral para o cinema, onde a impressão que fica é que nem mesmo ele compreendeu a grandeza de seu projeto e as grandes proporções que sua obra poderia alcançar, sua câmera parece não entender que isso é cinema, não mais teatro, seu realismo passa a ser forçado e o que poderia ter sido maior, como as sequências da revolução ao ar livre, surge pequeno, é como se houvesse um universo enorme nas mãos dele, porém, nem sempre ele transmite da melhor forma.


O roteiro assinado por William Nicholson, já acostumado com obras de época, ele que escreveu "O Gladiador" e "Elizabeth - A Era de Ouro", retorna na difícil missão de levar um musical para as telas. Vemos a miséria sob diversas perspectivas, seja daquele homem infeliz e vazio que tenta se redimir através do amor da filha que o destino lhe deu, seja daquela mulher que se prostituiu para salvar aquela que amava, ainda vemos o casal de oportunistas que encontram na trapaça e no roubo a única maneira de sobreviver, ou aquela jovem garota pobre que encontra no amor o único sentido para sua vida. Em seu roteiro, não é nítido, mas há diversos capítulos, alguns personagens tem seu início, meio e fim em poucos minutos, como é o caso de Fantine. O ponto de partida é a libertação de Jean Valjean e toda a sua trajetória vai dando vida a outros indivíduos, e a meu ver, isso foi um grande acerto, pois todos os personagens tem seu espaço, são bem desenvolvidos, onde cada um tem sua importância na trama. O problema de haver essas "subtramas" é que durante todo o filme, e eu estou falando de duas horas e meia de filme, como uma amiga minha disse e gostei de seu termo, há uma quantidade exagerada de "ápices dramáticos", ao seu final, já não mais aguentava tanto drama, tanto sofrimento de tantos personagens. O problema fica maior ainda quando todos esses intermináveis conflitos são cantados, é preciso dizer que gosto de musicais e não é de hoje que admiro este gênero, mas "Os Miseráveis" foi muito além do tom ideal, as canções extremamente melancólicas fazem deste longa jornada uma experiência ainda mais cansativa e maçante, se os dramas já são pesados, ficam ainda mais quando estes são cantados pelas vozes sofridas de seu elenco.

A sorte deste musical é que seu elenco é bastante corajoso. Não consigo entender esta surpresa das pessoas sobre a atuação de Hugh Jackman, é com certeza, o melhor momento de sua carreira, finalmente se consagra como ator, no entanto, este não é seu primeiro bom trabalho, quem viu obras como "O Grande Truque" de Christopher Nolan e "Fonte da Vida" de Darren Aronofsky, sabe muito bem disso. Jackman é o grande destaque deste musical, apesar de não cantar tão bem e desafinar constantemente com seus diálogos cantados, seu esforço como ator impressiona, se joga inteiramente neste difícil personagem. Anne Hathaway, é claro, é outro bom destaque onde já era assunto antes mesmo do filme lançar, sua magreza, seus cabelos raspados, a dor de sua voz e o sofrimento de seus olhos e suas expressões emocionam de forma intensa e seu memorável número musical "I Dreamed a Dream" é aquele que fica na nossa cabeça assim que o longa termina. Já Russell Crowe surpreende de tão ruim, além de cantar mal, o ator faz questão de não se expressar durante todo o filme, para piorar, seu personagem é o que há de pior neste musical, numa perseguição sem graça e insistente com o protagonista Jean Valjean. Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen estão bem em cena, são o alívio cômico no meio de toda a desgraça do roteiro e assim acabam salvando diversas sequências, é o ânimo no meio do sofrimento, o que é muito bom. Do restante do elenco, temos a novata no cinema Samantha Barks, jovem, porém é uma das grandes vozes do musical e a bela Amanda Seyfried e Eddie Redmayne que também estão ótimos. Sim, claro, a verdade é que não há nenhum grande cantor nesta produção, há muita desafinação e isso prejudica diversas cenas, no entanto, como disse anteriormente, é nítido o esforço de todos em cantar, vale por ver grandes atores se entregando desta forma, não recomendo sua trilha sonora, mas na tela, apesar dos erros, tudo é mais belo quando há ótimas atuações por trás das canções. 

"Os Miseráveis" provavelmente será lembrado entre os bons exemplos de musicais no cinema. Não é meu preferido e sinceramente esperava muito mais dele, porém sua beleza é inquestionável, toda a equipe deste filme, seu diretor e seus atores fazem de tudo para o melhor e isso é admirável, ver o esforço de muito trabalho, ver o quanto é um projeto arriscado, por ser tudo muito grande, muito ousado, ver o respeito do roteiro para com a obra original, tudo isso conta e fazem deste longa um musical de grande qualidade e que merece ser apreciado. Confesso que me cansou, duas horas e meia de pessoas cantando sem intervalos numa história pesada e com uma carga dramática muito acima do aceitável, este é o "Os Miseráveis" que tem emocionado muita gente, mas com certeza não é para todo o tipo de público. Gostei, é belo e muito bem realizado, e mesmo com suas falhas, Tom Hooper prova, mais uma vez, ser um diretor competente, que arrisca, que procura soluções nada fáceis, e mesmo com seus exageros, emociona.

NOTA: 8



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