terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Crítica: O Palhaço (2011)

Existem filmes que assistimos e logo nos esquecemos. Existem filmes tão ruins que fazemos questão de esquecer. E existem aqueles filmes que de tão incríveis sentimos que jamais esqueceremos. "O Palhaço", novo longa-metragem de Selton Mello, o segundo de sua carreira como diretor, se encaixa perfeitamente neste último grupo. Com suas cores saturadas, a vida circense nunca fora mostrada com tanto brilho e tanta alma quanto aqui. Não só o melhor filme nacional de 2011, mas também um dos melhores lançados no ano dentre todos, disputando com grandes produções estrangeiras, que de longe não alcançaram a perfeição deste.

por Fernando Labanca

O Circo Esperança viaja pelo Brasil afim de levar a alegria para seu respeitável público, liderado por Benjamin (Selton Mello) e seu pai, Valdemar (Paulo José), que juntos fazem a atração especial do evento como os palhaços Pangaré e Puro Sangue. Além deles, pessoas que se despoem a fazer de suas vidas a felicidade das outras, uma trupe que é quase como uma família, cada um com suas estranhezas. Entretanto, nada vai tão bem para Benjamin, que passa a não ver mais graça no que faz, começa, enfim, se questionar sobre sua vida, quem ele era verdade e se aquele era mesmo o local em que deveria estar. E pequenos problemas de sua rotina, como a falta de um ventilador, a falta de um sutiã grande para uma das apresentações e as burocracias chatas que tem que enfrentar por não ter um documento de identidade, ajudam ele a ver a tristeza da vida. Mais do que tudo isso, Benjamin se questiona sobre quem será a pessoa que o fará rir, logo que é só isso o que ele faz.

Cada pessoa tem sua função aqui nesta vida, algunas nasceram para estar dentro de um escritório, algumas para ensinarem outras pessoas e algumas para fazerem outras rirem. Entretanto, esta descoberta não é uma jornada tão fácil. "O Palhaço" nos mostra este momento na vida deste indivíduo, quando os questionamentos existencialistas o cercam. Nunca saberemos se estamos ou não no lugar certo, não há ninguém que nos avise ou nos guie, é uma descoberta que vamos fazendo sozinhos, alguns nem ao menos tem esta verdade revelada. E o quão difícil é aceitar esta vida, os problemas, os conflitos, os obstáculos que nos fazem questionar sobre tudo, questionar até mesmo se onde estamos é exatamente onde deveríamos estar. E esta jornada de Benjamin é mostrada com tanto sentimento, com simplicidade, sutileza, mas ao mesmo tempo, capaz de nos fazer refletir, capaz de nos fazer emocionar. Um filme que consegue mexer com seu público, sem precisar ser melodramático, nada menos que uma das obras mais tocantes que vi neste último ano. 


Por trás deste belíssimo drama existencialista, Selton Mello abre espaço para uma homenagem ao humor brasileiro. Não consegui ver de outra forma. Uma deliciosa homenagem. Onde os atores tão a vontade em seus respectivos personagens dão vida a um humor perdido, um humor que o cinema norte-americano jamais será capaz de fazer e um humor que os brasileiros vem perdendo. Aquela piada fácil, que vem sem a necessidade de ser vulgar ou obscena, um humor inocente, como os antigos "trapalhões". Para ilustrar isso, o filme coloca em cena grandes humoristas deste tempo, que hoje são ignorados pela mídia, como Moacyr Franco, José Loredo (o Zé Bonitinho) e o Ferrugem, que quando surgem, trazem o riso fácil do público, em interpretações que surpreenderão a todos que os subestimem, em interpretações dignas de muita admiração. Como quando José Loredo conta uma piada em uma das cenas finais. Que cena brilhante! A piada é fraca, mas o segredo é como ele a conta, fiquei até emocionado. Ainda temos Fabiana Karla, que tira os trejeitos de uma atriz Zorra Total, e faz uma pequena sequência, que chega a ser tocante mesmo sendo tão simples. E o que falar da única cena do ator Emilio Orciollo Netto? Hilária. Enfim, "O Palhaço" além das lágrimas, tem o milagre de nos fazer rir sem apelar e por isso é mais do que um grande drama, é uma grande comédia.

Um outro ponto positivo e que tem muito destaque na trama é sua trilha sonora. Reponsabilidade do músico Plínio Profeta, o que ouvimos durante o filme é algo surreal de tão belo, com referências minimalistas e um ritmo delicioso de acordeão, que me lembrou a belíssima trilha de "Pequena Miss Sunshine", é inspirador e que colabora muito para o resultado final. A parte técnica de "O Palhaço" é de um primor que já faz o ingresso valer a pena, desde os figurinos de Kika Lopes, a fotografia que faz cada cena parecer um belíssimo quadro de pintura com suas cores saturadas em composições perfeitas, até as locações, os cenários que nos fazem presenciar aquela vida circense e nos faz sentir parte daquilo e durante os minutos de filme, nos sentimos felizes por presenciar todo este espetáculo visual. Provando assim, a brilhante direção de Selton Mello.

Selton Mello como diretor acerta em cheio e como ator, não faz mais do que um trabalho incrível. O ator encarna perfeitamente um palhaço, sua entonação em suas apresentações e o modo como ele age perante o público, além de nos divertir facilmente com sua excêntrica personalidade, com inspirações nítidas a Chaplin. Paulo José acabou me surpreendendo, sempre tive problemas com sua dicção, mas isso acaba que não sendo um problema quando sua interpretação é tão rica. A trupe do circo é composta por atores desconhecidos mas que dão um toque especial, ajudam a compor o humor e acabam sendo coadjuvantes de grande peso, figuras como os atores Álamo Facó e Eron Cordeiro estão entre eles, além da pequena Larissa Manoela que encanta com seu sorriso e talento.

"O Palhaço" me surpreendeu, esperava ver um filme bom por suas críticas positivas, mas não esperava ver uma obra tão completa assim, que me prendesse tanto, que me emocionasse dessa forma, que fosse tão tocante e inspirador. E que me fizesse rir como poucos filmes conseguiram, sem malícia, sem apelação, o humor como deve ser. Direção impecável, me lembrando até a excentricidade de Wes Anderson (Os Excêntricos Tenenbaums, Viagem a Darjeeling). Uma obra extremamente bem realizada, com roteiro bem escrito que não dá abertura para diálogos desnecessários para plantar o drama, são pelos olhares que muitos conflitos aqui são resolvidos, ganhando força dessa forma, conseguindo emocionar mesmo com tanta simplicidade, e para isso ser feito com competência, atores brilhantes em cena que dão um outro grande espetáculo. Um filme para se ver, refletir, sentir. Rir e se emocionar, milagrosamente, na mesma cena. Na verdade, é exatamente o que "O Palhaço" é, um filme milagroso. 


NOTA: 10



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