terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Crítica: Cavalo de Guerra (War Horse, 2011)

Ano passado assistimos ao retorno de grandes diretores como Terrence Malick (A Árvore da Vida), Pedro Almodóvar (A Pele Que Habito) e Lars Von Trier (Melancolia). 2012 começou e o que o cinema ganha é a volta dupla de Steven Spielberg, com a animação "As Aventuras de Tintim" que estréia nesta sexta e o drama épico "Cavalo de Guerra". Spielberg, um dos grandes nomes da indústria cinematográfica, não dirige um projeto desde 2008 com o último "Indiana Jones", mas pode-se dizer que não apresenta um trabalho notável desde 2005 com o excelente "Munique". E neste drama temos a prova de que o bom e velho Spielberg está de volta.

por Fernando Labanca

"Cavalo de Guerra" nos mostra a trajetória do cavalo Joey, tendo como cenário a Primeira Guerra Mundial. Sua jornada inicia-se ao lado da família Narracot, na Inglaterra, início do século XX, que moram e desenvolvem seu próprio sustento em uma fazenda alugada, propriedade de um homem sem escrúpulos (David Thewlis). Ted (Peter Mullan), o pai, que tem problemas com bebidas, decide enfrentar seu proprietário em um leilão de cavalos, oferencendo mais do que podia em um cavalo fora dos padrões e que em nada poderia ajudar na fazenda. É quando seu filho, Albert (Jeremy Irvine) tão encantado pelo animal resolve treiná-lo e ensiná-lo a arar as terras do terreno, criando, então, um laço muito forte com ele. 

Até que os ensinos ao cavalo não são capazes para pagar as dívidas da família, é então que Ted decide vendê-lo para o exérito britânico quando a Guerra é enfim anunciada. Para a infelicidade de Albert que vê seu amigo sendo vendido, servindo como transporte para os soldados. Vemos a partir de então, a trajetória de Joey por esta batalha, sua ida para França, até quando é capturado pelo exército alemão, e sem querer, acaba que inspirando cada um que encontra, e ele se torna um ser privilegiado, único capaz de enxergar a bondade que aflora em cada pessoa neste cenário tão frio e violento. 


"Cavalo de Guerra" funciona quase como um conjunto de crônicas sobre a Primeira Guerra Mundial, tendo um único protagonista, o cavalo Joey. E tendo os olhos do animal como o olho do público, vemos várias histórias que vão se costurando e formando toda a trajetória do cavalo. Seja seu primeiro dono e amigo fiel, Albert, até as próximas pessoas que decidem no meio do caos da guerra protegê-lo de alguma forma, o soldado valente (Tom Hiddleston), o jovem inocente que não divide os mesmos ideais que seu exército (David Kross), a menina órfã que perdera tudo e encontra em Joey uma nova esperança, entre outros que veem no cavalo o nascer de um novo sentimento, a beleza que não se enxerga numa guerra sem fundamento, o amor inocente de uma amizade que se perde no meio de tanto sangue. É isso que o roteiro bem desenvolvido de "Cavalo de Guerra" explora, refletindo a idéia de que o meio em que o homem se situa não revela seu verdadeiro caráter, e naquele cenário caótico, descobrimos através de um animal a essência de cada ser humano que cruza seu caminho, onde os ideais daquela guerra não eram os mesmos de todos aqueles que lutavam por ela. 

Para nos mostrar a história, Spielberg optou por um elenco desconhecido do grande público, dentre os mais conhecidos vemos Emily Watson, com seu olhar intenso, ótima em cena, e David Thewlis, bem, apesar de estar em uma personagem um pouco caricata. O jovem Jeremy Irvine com mais destaque na trama, tem espaço para brilhar, e consegue, e convence em sua performance. Ainda vemos no elenco nomes como David Kross (O Leitor) e Tom Hiddleston (Thor), bons em cena. Por outro lado, vemos personagens que às vezes soam forçadas por algumas atitudes, como o pai Ted (Peter Mullan) que nunca sabemos ao certo o que se passa em sua mente, ora quer o cavalo, ora não quer mais, ou a relação entre Joey e Albert que parece não haver um processo, o jovem se apaixona pelo animal desde o primeiro olhar, e apesar da atuação convincente Jeremy Irvine, esse amor parece forçado, consegue emocionar, mas é tão intenso que foge da realidade. Ou o sargento "malvado" que se derrete do nada ao ver o animal e seu dono no meio da guerra. Enfim, o que me pareceu em algumas passagens foi a necessidade de tentar emocionar o público sem pensar na necessidade de ser coerente.

A trilha sonora de John Williams, mais uma vez trabalhando em um projeto de Spielberg, é soberba. É realmente bela e tem papel fundamental na trama. No entanto, com o auxílio desta mesma trilha sonora, o diretor tenta com todas as suas forças emocionar o público. De fato, "Cavalo de Guerra" é um filme emocionante, simplesmente por sua história e sua bela conclusão, porém Spielberg parece não apostar tanto no potêncial do roteiro e força na trilha de Williams o nascimento de um drama que muitas vezes não existe. Nisso, é onde tembém surgem os já citados personagens que forçam este drama, sem precisar, a trama por si só já era interessante e comovente. Mas no geral, a fórmula acaba funcionando, mais uma vez, porque a idéia do projeto é boa. Confesso que tive um certo receio por se tratar da história de um cavalo, o cinema já fez isso antes e admito não ter gostado muito dos resultados. Para minha surpresa, "Cavalo de Guerra" é bem mais que a história de um cavalo, tem uma história bem desenvolvida capaz de prender a atenção do público mesmo se tratando de 146 minutos, minutos, aliás, muito bem preenchidos. 

Com sua bela fotografia e um certo amadurecimento de Steven Spielberg (se é que isso era possível), o diretor prova aqui ser um dos melhores, e consegue, na tela, fazer uma espécie de homenagem ao cinema. Ele vê nesta trama o momento perfeito para mostrar ao público sua admiração e seu conhecimento sobre a sétima arte. Seja pela inocência da história, a maneira como ele captura cada cena, nos remetendo sempre a um cinema antigo, é tudo muito nostálgico e consegue trazer beleza nisso. Ainda vemos a fotografia, com suas cores fortes e exageradas, aquele céu alaranjado que me lembrou e muito o fundo de "E o Vento Levou..." e todo aquele cinema daquela época que acabara de descobrir a cor. Com esta bagagem em mente, inspirado como nunca, Steven Spielberg consegue construir cenas, diria até, antológicas, como quando os soldados em território francês fixados em suas trincheiras se lançam ao ataque, ao som de uma gaita de fole, enfim, não há palavras para descrever a beleza desta sequência, ou quando o cavalo Joey, já na parte final, corre em meio a ataques e explosões, e se prende em arames farpados, é onde dois soldados inimigos se unem para salvá-lo, sem contar todas a cenas de batalha, perfeitas!. Em suma, "Cavalo de Guerra" é admirável, seja pela incrível direção de Spielberg, seja pela construção de cenas memoráveis ou pela simples comoção que a trama nos proporciona. 

NOTA: 8,5




Um comentário:

  1. Eu discordo sobre você dizer que algumas cenas foram forçadas, e que o amor entre Albert e joey era também forçado. Mas cada um com sua opinião, e eu queria dizer que esse foi o filme épico que eu mais gostei, porque conseguiu mistura um pouco da realidade, com a mágica do cinema sobre o amor da amizade. E bom, eu, com certeza, me emocionei demais.

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