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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Crítica: A Forma da Água (The Shape of Water, 2017)

A belíssima fábula de Guillermo del Toro e um dos filmes mais relevantes de sua carreira.

por Fernando Labanca

"Desde a infância eu tenho sido fiel aos monstros. Eu tenho sido salvo e absolvido por eles, porque os monstros em que eu acredito são os santos padroeiros da nossa feliz imperfeição e eles permitem e incorporam a possibilidade de falhar e de viver". Foi com esse discurso que o diretor mexicano recebeu seu prêmio no último Globo de Ouro e são com essas falas que nos deixa claro o quanto esses "monstros" que Del Toro criou durante sua carreira o salvaram. Ele sempre foi outsider em Hollywood, assim como suas bizarras criações que nunca receberam devida atenção da crítica, até agora. Quase nunca uma fantasia seguiu como favorito absoluto de uma importante premiação de cinema e é ótimo que isso, finalmente, tenha acontecido. "A Forma da Água" é um filme especial, tem algo a mais, longe de ser uma ficção vazia, parece dizer muito sobre tanta gente e justamente por isso pode causa uma identificação fácil. Parece um conto sobre esses outsiders, sobre aqueles que vivem à margem, sobre aquelas criaturas sem voz e que o mundo precisa ouvir.


sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Crítica: Amizade Colorida (Friends With Benefits, 2011)

Você já deve ter se perguntado o porquê das comédias românticas nunca mostrarem um relacionamento de verdade, desde a maneira como o casal se conhece, passando pelos conflitos até seu final, por muitas vezes, irreal, nos mostram uma fantasia, algo que nunca aconteceria. Pois bem, "Amizade Colorida" vem para questionar tudo isso, e se sai muito bem!

por Fernando Labanca

O longa conta com a presença de Mila Kunis e Justin Timberlake, dois ex-coadjuvantes de peso em recentes filmes premiados, ela em "Cisne Negro" de Darren Aronofski, ele em "A Rede Social" de David Fincher, agora, os dois protagonizam e ambos tem espaço de sobra para provar talento. Dirigido por Will Gluck (de "A Mentira"), o filme muito antes de ter sido lançado já era comparado com outra produção, "Sexo Sem Compromisso", recentre trabalho de Natalie Portman e Ashton Kutcher, que mostrava a relação de dois amigos muito íntimos baseada somente no sexo. Mas desde o ínicio de "Amizade Colorida", percebemos que se trata de uma história bem diferente e no resultado final, é bem superior ao filme de Portman.

Conhecemos Jamie (Kunis), uma bela moça que trabalha recrutando e encaminhando pessoas para grandes empresas, é assim que conhece Dylan (Timberlake) que se interessa numa vaga como editor de sites, área que possui grande conhecimento, mas tem dúvidas sobre morar em Nova York, até que Jamie como parte de seu trabalho, convense o estranho a ficar e prova o quanto a cidade é fantástica e quanto ele cresceria profissionalmente. Assim, surge uma inesperada amizade, logo que ele não conhecia ninguém no local e ela passa a ser sua única companhia. Eis que certo dia, ambos discutem sobre a carência que sentem de sexo, e assim surge uma espécie de pacto, onde transariam quando sentissem vontade e nada de relacionamento sério, ninguém se afeiçoando a ninguém, somente sexo, nada além disso!

Jamie, por sua vez, sempre foi fã de comédias românticas e sempre se questionou porque os relacionamentos perfeitos não existem na vida real, e nisso acaba que criando um bloqueio emocional em si mesma, e mesmo "estando" com Dylan se arrisca em outros relacionamentos paralelos mas que fracassam e acaba sempre parando nos braços de seu "amigo". Até que quanto mais tempo os dois passam juntos, um vai conhecendo mais o outro, a família, os erros do passado, os medos, as fraquezas de cada um e sem que percebam vão criando um laço muito forte entre eles, uma conexão que não haviam planejado.


Gosto de comédias românticas, mas admito que elas são ainda melhores quanto tantam fugir do óbvio e tentam seguir um caminho menos fantasioso e mais realista, casos raros como "500 Dias Com Ela" e "Ele Não Está Tão Afim de Você". "Amizade Colorida" é mais um caso raro, que discute de forma não tão madura quanto os outros exemplos, mas ainda assim, de forma inteligente, onde o roteiro acerta o foco e nos mostra de forma bastante eficiente um "relacionamento moderno", ao mesmo tempo em que questiona as mentiras que a ficção nos conta e como o cinema influencia nossa mente nos fazendo acreditar em mulheres ou homens que não existem. Assim, conhecemos Jamie, aquela que se apega ao cinema e diz não acreditar em relacionamentos como os da ficção, mas que no fundo, ainda espera aquele príncipe, o problema é que Dylan não é bem aquele príncipe, é humano, é fraco, erra e está longe de ser perfeito.

O roteiro é bom, bem desenvolvido, a maneira como o casal se conhece convense, assim como os problemas que enfrentam e o mesmo digo de seu final. Diferente de "Sexo Sem Compromisso", o roteiro não se perde em outros personagens secundários, o foco aqui é o casal, portanto os temas abordados são trabalhados de forma mais eficiente, e os coadjuvantes que surgem não são inúteis e nem bobos como no geral das comédias românticas. Outro ponto positivo é a trilha sonora, muito bem aproveitada nas cenas, com direito a "Closing Time" do Semisonic, em uma passagem divertida em um flash mob bem estiloso e bem realizado. Entre esta, há outras inúmeras cenas boas, diálogos bem escritos e sequências que ficam na nossa mente mesmo depois de já ter terminado.

Mila Kunis é extremamente carismática, diverte e para completar, atua bem. Apesar de jovem, a atriz já possui uma certa experiência frente às câmeras e soube com competência protagonizar o filme. Justin Timberlake para surpresa de toda a nação, atua bem também, e funciona como ator, e ao lado de Kunis, os dois formam um divertido casal, talvez um dos mais interessantes que surgiu este ano nos cinemas, há uma química incrível entre eles, conversam como se conhecessem há anos, há naturalidade em ambas as performances. Dentre os coadjuvantes, vemos o sempre ótimo Richard Jenkins, Jenna Elfman, boa em cena, Woody Harrelson, impecável como amigo gay de Dylan e Patricia Clarkson na personagem mais exagerada do longa e acaba que se saindo não muito bem.

Uma das comédias românticas mais interessantes deste ano, fato! Vale pela química entre o casal principal, só por Mila Kunis e Justin Timberlake já vale o ingresso. Mas ainda há outros elementos que fazem deste filme, uma obra interessante e muito bem realizada. Perde um pouco a força no meio do filme, mas recupera na parte final e termina muito bem. Apesar de questionar a forma como os relacionamentos amorosos são mostrados no cinema, "Amizade Colorida" não foge tanto dos clichês e por muitas vezes segue um caminho já seguido, tenta driblar mas acaba que caindo na armadilha de ser clichê, mas afinal, que mal há nisso? Quando bem inseridos, clichês são válidos e neste caso, funcionou muito bem. Um filme divertido, bem engraçado, entretenimento de qualidade e que também sabe emocionar! Recomedo.

NOTA: 8,5


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Crítica: Comer, Rezar, Amar (Eat Pray Love, 2010)

Criador de uma das séries mais comentadas da atualidade, "Glee", Ryan Murphy, elogiado por sua criação, foi para o cinema, afim de transpor para as telas o best seller "Comer, Rezar, Amar" de Elizabeth Gilbert. Com Julia Roberts no papel principal, o filme nos guia a uma incrível viagem de descobertas para a personagem, mas quem sai ganhando, definitivamente, é o público!

por Fernando Labanca

Elizabeth (Roberts) é uma escritora, com um trabalho promissor, dinheiro, um marido que a ama num relacionamento estável, enfim, tinha em suas mãos tudo o que muitas mulheres anceiam. Até que chega um momento em sua vida que começa a questionar tudo ao seu redor, se é isso que a faz feliz, que precisa para continuar vivendo. Percebendo que não ama mais seu marido, Steven (Billy Crudup), tem um surto, pede o divórcio, e numa tentativa de reconstruir sua vida, começa a se relacionar com um ator, um homem bem mais novo que ela, o sensível e intelectual, David (James Franco). Porém, esta união não é o suficiente para satisfazê-la como pessoa e percebe que precisa mais, não de um novo homem, não de outro emprego, mas precisa se encontrar no mundo, descobrir quem realmente é e do que realmente precisa para viver.

Ela decide abandonar tudo e todos, faz as malas, e faz um roteiro de viagem, três lugares, Itália, Índia e por último, o lugar onde a faz questionar tudo isso, Bali, na Indonésia, onde, numa viagem a trabalho havia conhecido um guru cheio de sabedoria que a fez acreditar que um dia abandonaria tudo e retornaria para o local. Na Itália, conhece a gastronomia mais requintada do mundo, belos pratos e muito sabor, faz alguns amigos, começa a aprender italiano, descobre as curiosidades sobre a cultura local. Na Índia, decide entrar em maior contato com a religião, começa a frequentar alguns templos, é onde conhece Richard (Richard Jenkins), um homem, a princípio irritante, mas depois, ela descobre seu passado, e numa intensa conversa com ele, Elizabeth começa a refletir sobre sua vida, principalmente sobre o homem que a amava de verdade e ela o abandonou, e por isso se sentia tão presa, por não ter se perdoado pelo ato. Ainda no país, conhece uma jovem indiana que pela tradição, é obrigada a se casar com um desconhecido. Em Bali, Elizabeth pretende encontrar o equilíbrio, encontrar, enfim, a paz, e lá conhece o brasileiro Felipe (Javier Bardem), e acaba encontrando o que não estava em seus planos, o amor.











Quem nunca pensou em desistir de tudo? E desistir, não significa cortar os pulsos, mas sim, abandonar a rotina, conhecer novos lugares, respirar novos ares. Quem nunca acordou diferente do "ontem" e começa a querer novas coisas e percebe que tudo o que tem, na verdade, não é o que precisa, a instabilidade e a complexidade do ser humano. "Comer, Rezar, Amar" nos coloca na vida de Elizabeth, uma mulher, assim como muitas pessoas, cansa da vida que leva, e num ato de desespero, talvez, mas também de muita coragem, embarca numa viagem de auto-descobertas. O público é mais feminino, mas não significa que os homens não o aprovem, muitos poderão se identificar com as crises de Elizabeth e se envolver facilmente com essa bela trajetória, de comida, de religião e amor, três dos elementos que muitos procuram para viver.

Muito criticado, "Comer, Rezar, Amar", ao meu ver, é delicioso. Não só pelos pratos italianos, mas principalmente pelo conteúdo. A jornada exposta é incrível, e Ryan Murphy, como diretor, acerta em cheio, ele consegue guiar essa viagem brilhantemente, seja pela trilha sonora, pelas ótimas locações e fotografia. O filme é longo, 2 horas e meia, tempo suficiente para colocar as tramas de forma tranquila, sem correr, dando espaço devido para cada situação e personagem, tudo na dosagem certa.

Julia Roberts está linda, convence em tudo, tanto nos momentos de crise de Elizabeth, quanto nos momentos de maior descontração. Os coadjuvantes acertam também, principalmente Richard Jenkins e James Franco, em cenas memoráveis, ambos contróem personagens belos e com muita comoção, e são por eles feitos, alguns dos melhores diálogos do filme. Billy Crudup, carismático e correto. Viola Davis aparece como melhor amiga de Elizabeth, e até hoje não consigo enxergar na atriz tal posição, como se ela fosse boa demais para isso, para uma simples coadjuvante-confidente, papel que exerceu também em "Noites de Tormenta". Javier Bardem, ator espanhol e experiente, fica com o pior desempenho no filme, totalmente deslocado na trama, ele não convence nenhum um pouco como brasileiro, desde seu sotaque até suas atitudes.

Sim, o longa tem seus defeitos, Javier Bardem é um deles, por incrível que pareça, também algumas músicas se repetem e isso chega a incomodar. Além, disso, há alguns detalhes da cultura brasileira totalmente erradas, como o beijo na boa dos filhos (What???), e também acredito que acabou se tornando um defeito, o fato da passagem pela Itália, a primeira, ter sido a melhor de todas, tanto pelos personagens, pelas situações, e principalmente pelo ótimo rítimo dado ao capítulo, que infelizmente se perde no decorrer do filme. Mas isso, não chega a estragar, aliás, seria preciso muito mais para fazer deste filme algo ruim, "Comer, Rezar, Amar" está acima da média, e vai além, um filme delicioso, divertido e emocionante, tudo é feito para fazer o público refletir, nada vem de graça no longa, cada diálogo, cada cena, tem um propósito, e acredito que o filme tenha consigido alcançar seu objetivo. Um longa cheio de vida, cheio de lições com frases de efeitos, cenas belamente construídas, tudo em perfeita harmonia.

NOTA: 9

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