segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Crítica: Um Dia (One Day, 2011)

Baseado no Best Seller de David Nicholls, que aqui assina como roteirista, o filme tem a direção da dinamarquesa Lone Scherfig (Educação) e conta com as atuações de Anne Hathaway e Jim Sturgess como o casal que enfrenta o pior de todos os vilões, o tempo. 

por Fernando Labanca

15 de julho, a data que marcaria a história de duas pessoas pelo decorrer de suas vidas. Ano de 1988, Emma (Hathaway) e Dexter (Sturgess) enfim trocam palavras no dia da formatura, mesmo eles tendo estudado por anos juntos, para a felicidade da garota azarada e tímida em finalmente conhecer o típico popular do colégio. Eles ficam aquela noite, dia de São Swithin, e como tradição do dia, qualquer acontecimento estaria fadado a se repetir, permanecer nos próximos anos. O que de fato, acontece.

1989, passando pela década de 90, anos 2000. E durante 20 anos, Emma e Dexter vão se reencontrando, e sempre no dia 15 de julho, algo de importante ocorre em suas vidas, estando eles juntos ou não. Ele, metido, arrogante, com excesso de auto-estima, conhece a fama e o poder, e o tempo lhe mostra que nem tudo é para sempre, também conhece a perda, o fracasso. Já Emma, não acredita em si mesma, no seu potencial, se torna professora mas pouco se depara com o sucesso. E nesses anos, se tornam amigos, confidentes, aquele pilar que suporta os erros e ajuda a encarar os medos. O amor estava ali, era nítido, mas achavam que tudo era para sempre, que teriam tempo. Mas o tempo voa, e ele não perdoa, é ele quem nos dá a felicidade, o sucesso, mas também é ele que nos trás as verdades, e que nos tira as chances de algo que não aproveitamos no passado. 



Não, não é um simples filme de romance. É muito mais do que isso. "Um Dia" é basicamente sobre o tempo, o que ganhamos, o que perdemos, o que ele nos dá, o que ele nos tira. E em menos de duas horas de filme, vemos uma vida inteira, ou melhor, duas vidas. Acompanhamos o decorrer dos anos de Emma e Dex, do sucesso ao fracasso, da tristeza ao auge da felicidade, vemos o tempo moldando a personalidade deste casal, e neste quesito, é muito interessante analizar o filme, ver as mudanças deles, o quanto as experiências da vida de cada um vai os alternando e alterando a vida do outro. Sim, também há romance, e do melhor. O casal mostrado emociona e encanta, acredito pelo fato do roteiro nos fazer indentificar com eles, simplesmente por serem humanos, não serem os típicos casais de filmes de romance, eles que erram, acertam, erram de novo e no mesmo erro, por serem idiotas, por vezes, irritantes. Dexter é o famoso anti-herói que não inspira ninguém e Emma é aquela que demora a acordar pra vida, e juntos, com seus encontros e desencontros, nos fazem emocionar, torcer, e se envolver, pelo menos, foi assim que me senti durante toda a história. 

Lone Scherfig com sua experiência nos prova mais uma vez seu talento por trás das câmeras, depois do adorável "Educação" de 2009. "Um Dia" não é diferente, também é um filme adorável, daqueles pra se guardar na memória e rever milhões de vezes. Ela trás estilo ao longa, um charme que poucos filmes este ano conseguiram, ajudada pela incrível fotografia e trilha sonora, na maioria da vezes, instrumental. Outro ponto extremamente positivo foi o roteiro, contar uma história de 20 anos em 108 minutos não é para qualquer um, e o resultado foi positivo. O filme soube transitar facilmente a cada ano mostrado, e em apenas um diálogo, conseguimos compreender o que ocorrera nos meses anteriores sem a necessidade de mostrá-los. E em cortes, vemos toda a mudança na vida das personagens, sem parecer corrido ou artificial. O interessante também, é que os anos não são identificados apenas com as informações na tela, mas também são traduzidos com o olhar da diretora para cada época, cada ano parece ter uma cor diferente, um estilo diferente, se destacando também os figurinos, muito bem inseridos, além da maquiagem, fazendo Anne Hathaway e Jim Sturgess convencerem tanto quanto jovens no colegial quanto adultos. 

Por falar nos atores, Hathaway e Sturgess dão um belo show na tela. Anne que foi criticada por alguns por seu sotaque britânico, logo que ela é norte-americana, pode sim ter sido um problema para os ingleses, mas ao meu ver, pouco interferiu no resultado final. Sua atuação é bela, convincente, se em algumas cenas o filme perdia um pouco de ritmo, lá estava ela com seu brilho, elevando todas as cenas em que esteve presente, soube trasmitir toda a inocência da joventude até a maturidade alcançada ao decorrer dos anos. Sturgess por sua vez, falhou em algumas sequências, principalmente na primeira metade, foi estranho vê-lo como apresentador de TV, sua arrogância nem sempre convenceu, mas vai melhorando e no final, emociona com sua performance sensível. E os dois juntos, possuim uma adorável química, talvez um dos casais mais interessantes visto este ano no cinema. 

"Um Dia" me surpreendeu, esperava ver um filme bom simplesmente pelo seu elenco que ainda conta com a ótima performance de Patricia Clarkson e a belíssima Romola Garai. Mas também esperava ver um romance meloso, bonito, mas meloso. Não foi o que vi, vi um filme maduro, inteligente, com ótimos diálogos, atuações convincentes, e uma história incrível sobre o tempo e amizade. E para melhorar, um final marcante, emocionante, que fez toda a história fazer sentido. Vale muito a pena arriscar nesta obra. Recomendo. 

NOTA: 9




Um comentário:

  1. Nossa, bela crítica. Sem acrescentar. Tive a mesma sensação quando o assisti. Realmente, o tempo é o nosso maio vilão.

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