quinta-feira, 10 de março de 2016

Crítica: Anomalisa (2015)

Indicado ao Oscar de Melhor Animação, "Anomalisa" marca o retorno do gênio Charlie Kaufman, a mente que nos revelou obras como "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças" e "Quero Ser John Malkovich". Mais um acerto em sua carreira, o longa é, também, um passo adiante na técnica do stop motion.

por Fernando Labanca

Nesta primeira animação dirigida por Kaufman, acompanhamos algumas horas da vida de Michael Stone (dublado por David Thewlis), que viaja à Connecticut para realizar uma palestra. Sem conhecer o local, ele se hospeda em um hotel, é então que passado, futuro e presente começam a assombrar sua mente. Traumatizado pelo fim de um relacionamento antigo, as tristes lembranças vem a tona e Michael decide entrar em contato com sua ex, ao mesmo tempo em que precisa lidar com sua esposa que está distante e com Lisa (Jennifer Jason Leigh), uma mulher solitária que acaba conhecendo, despertando nele, sentimentos profundos e a esperança de uma mudança em sua vida.


É curioso como uma animação conseguiu ser tão humana. Como suas ideias, personagens e diálogos conseguiu transmitir tanto o que somos feito. É fácil se identificar com tudo aquilo, mesmo que sem a existência de um humano ali na tela. "Anomalisa" é o nosso triste reflexo, nossos maiores receios e falhas. Existe um clima melancólico que permeia por toda a obra, há tristeza mesmo quando se busca a felicidade, mesmo quando se fala em amor. Michael, o protagonista, é um ser instigante, um homem solitário que nunca está sozinho, que palestra sobre atendimento ao cliente, sobre a importância do contato, quando na verdade, estar distante é seu maior vício. Pensando nisso, ele muito me lembrou o "Sr. Bagagem Vazia", vivido por George Clooney em "Up in the Air" (2009), dramédia de Jason Reitman.

A maneira como toda a equipe da produção encontrou para traduzir todas suas brilhantes ideias é o que torna o filme tão único, excêntrico e bizarro também, mas sem deixar de ser fascinante. É genial o fato do personagem só ouvir uma única voz e ver um único rosto para todos os corpos, como se no universo existisse somente ele e o resto. E seu belo final só enaltece sua grandiosidade, é triste e bastante reflexivo. A maturidade da trama é outro elemento que o diferencia, em um gênero muitas vezes voltado para o público infantil, eles inovam ao realizar algo completamente adulto, inserindo ainda, cenas de nudez e sexo, em sequências que causam um certo estranhamento, o que é bom. Neste sentido, Kaufman e Duke Johnson , seu parceiro na direção, ousam e se mostram bastante criativos e corajosos.

"Anomalisa" demorou três anos para ser concluído. Enquanto o assistia compreendi a demora e perdoei Charlie Kaufman por seu longo sumiço dos cinemas, onde não lançava nada desde "Sinédoque Nova York" de 2006. Foi um trabalho árduo, insano e isso é nítido em cada segundo. O filme marca um passo a frente no que diz respeito a evolução do stop motion. É lindo, é de deixar qualquer um perplexo e chocado com a qualidade das cenas, as movimentações são tão delicadas e suaves, que por vezes, esquecemos que foram montadas frame por frame. É fantástico a composição de tudo, os bonecos e seus traços, a confecção detalhada dos figurinos e cenários. Chega a ser comovente ver o resultado final.

Acredito que o único problema da obra é que o roteiro nem sempre escolhe as melhores formas de defender suas ideias, por vezes perdendo tempo com sequências desnecessariamente longas como o encontro com as duas estranhas no hotel ou o pesadelo de Michael, é quando acaba cansando e como consequência, perdendo sua força. Penso, também, que é fácil criar uma identificação com sua trama, no entanto, a conexão com seu universo nem sempre é imediata. Em suma, uma obra muito bem executada, que merece ser encontrada, que nos faz pensar na vida e em tudo aquilo que nos compõe. É também sobre ausência, abandono, solidão, sobre envelhecer em uma sociedade tão individualista, onde as relações se tornaram tão descartáveis. Mas que no fundo, apesar de tudo, queremos ser como Lisa, esta anomalia, esta exceção, acreditar em uma justificativa, em uma razão para não sermos parte disto, seres deste mundo.

NOTA: 8





País de origem: EUA
Duração: 90 minutos
Distribuidor: Paramount Pictures
Diretor: Charlie Kaufman, Duke Johnson
Roteiro: Charlie Kaufman
Elenco: David Thewlis, Jennifer Jason Leigh, Tom Noonan

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