quinta-feira, 17 de março de 2016

Crítica: Steve Jobs (2015)

Brilhantemente escrito por Aaron Sorkin (A Rede Social) e dirigido pelo sempre competente Danny Boyle (Trainspotting), "Steve Jobs" é um filme fora do convencional e diferente do que se espera de uma cinebiografia, esta não tem a intenção de criar um herói por trás de suas criações e sim o homem, com todas as suas falhas, por trás de seu nome.

por Fernando Labanca

Fiquei bastante surpreso quando me deparei com "Steve Jobs". Apesar de sempre ter admirado o trabalho de Boyle como diretor e de já imaginar que Aaron Sorkin se recusaria a entregar um texto ordinário, cinebiografias são sempre cinebiografias e no fundo, pensava que esta não seria diferente, iriam glorificar seu nome assim como as pessoas e a mídia o glorificavam. Que interessante ver que justamente "seu filme", que tinha o espaço e chance para isso, decidiu seguir outro caminho e longe de tantas histórias reais sobre homens importantes, esta não esconde suas falhas, seus erros diante de tantas conquistas, seja por sua ausência como pai, seja por seu estranho comportamento diante dos outros. E este é o grande acerto da obra, não só conseguir fugir das armadilhas do gênero, como entregar algo muito além do que se esperava de um filme sobre Steve Jobs.


Para aqueles que desejam conhecer melhor a trajetória do ícone, este também não é o lugar. A ideia da trama é fazer alguns recortes de sua vida, destacando três momentos decisivos de sua carreira e o colocando nos bastidores, longe dos holofotes, revelando assim, o homem por trás do mito. São basicamente três fases bastante distintas que vão mostrando a evolução de seus personagens, iniciando em 1984 com o lançamento do Macintosh, 1988 quando Jobs inicia seu trabalho com a empresa Next e terminando em 1998, quando ele está prestes a oferecer ao público o iMac. O tempo inteiro somos colocados no backstage desses grandes eventos e com seu acelerado texto, vivenciamos a correria e o caos que era estar ali, definindo os últimos acertos, indo de encontro às incertezas de um improvável sucesso. 

Desta forma, "Steve Jobs" se assemelha à uma peça de teatro, três atos, sem começo, meio e fim. Seus personagens estão de passagem e é preciso uma atenção constante para acompanhá-los. É então que entra as ótimas soluções de Danny Boyle, que arrisca em diversos planos sequências, mantendo a empolgação e passando esta sensação de algo milimetricamente calculado, que não perde tempo, de algo contínuo que não admite erros. Não haveria forma melhor de adentrarmos à confusa mente de Steve Jobs e este corpo em constante atividade. Boyle, não contente com as inúmeras dificuldades da produção, optou por expor cada uma dessas épocas de maneira distinta, se utilizando de três tecnologias diferentes de filmagem (16mm, 35mm e digital) para ilustrar cada ato e mostrar o avanço da própria Apple durante todos esses anos. E essas formas de mostrar cada momento, tornam a experiência de vê-lo ainda mais enriquecedora, destacando a própria fotografia que se difere de uma época para outra, nos dando esta chance de percepção, visualizar ao seu decorrer suas alterações e compreender como a tecnologia modificou não só o cinema, mas nosso olhar sobre ele.


Não é apenas mais um filme sobre Steve Jobs. Vi uma obra extremamente original, fascinante de acompanhar. Seu texto é soberbo, dinâmico e ganha força quando interpretado por atores tão geniais. É curioso sua desconstrução desta antiga ideia de que atores precisam ser parecidos quando representam alguém em uma cinebiografia e este é o poder de Michael Fassbender, porque mesmo que tão distinto fisicamente com Steve Jobs - e a maquiagem não se esforça para aproximá-los -, há uma transformação e, milagrosamente, passamos a enxergar Jobs ali na tela, seu tom de voz, sua postura, existe um trabalho tão fantástico do ator que o coloca naquele grupo de profissionais que são capazes de fazer de tudo. Kate Winslet é uma coadjuvante monstro, ela devora os diálogos e faz uma parceria fantástica com Fassbender, assim como o restante do elenco, Jeff Daniels, Katherine Waterston, Michael Stuhlbarg e Seth Rogen que entra em cena como Steve Wozniak, criando um confronto muito interessante com o protagonista. Por fim, o longa é muito mais sobre personagens, sobre a relação de Jobs com cada uma dessas pessoas. O acerto aqui é ter compreendido que um homem é feito de atitudes, é feito daquilo que ele oferece aos demais e somente diante desses atos retratados que poderíamos conhecê-lo. Steve Jobs nunca foi aquilo que ele criou e é um erro pensar que ele tenha sido.

Termino dizendo que me surpreendi bastante, mas compreendo o quanto ele pode ser frustrante para aqueles que esperavam um retrato maior sobre sua vida e suas conquistas. É uma outra visão, uma construção diferente e neste sentido, "Steve Jobs" funciona muito mais como cinema do que como uma biografia e isso não é um erro. Temos o privilégio de encontrar uma produção muito cuidadosa, um filme bem elaborado, bem escrito, com uma bela trilha sonora e atuações admiráveis, além, é claro, de ser brilhantemente dirigido por este grande diretor chamado Danny Boyle, que continua mantendo sua filmografia a um nível elevado. 

NOTA: 9 




País de origem: EUA
Duração: 122 minutos
Distribuidor: Universal Pictures
Diretor: Danny Boyle
Roteiro: Aaron Sorkin
Elenco: Michael Fassbender, Kate Winslet, Seth Rogen, Katherine Waterston, Jeff Daniels, Michael Stuhlbarg, Sarah Snook


2 comentários:

  1. Também achei um filme grandioso!E que interpretação de Fassbender e Kate Winslet!

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    1. Obrigado pelo comentário, Celia. As atuações de Fassbender e Winslet me conquistaram muito e o filme é realmente fantástico!

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