segunda-feira, 14 de março de 2016

Crítica: Brooklin (Brooklyn, 2015)

Visto por muitos como o azarado do Oscar deste ano, "Brooklyn" surpreende ao ser um dos filmes mais completos da lista e um dos mais adoráveis também. Baseado no livro de Colm Tóibín, somos presentados com uma obra singela, simples, mas incrivelmente apaixonante, além de revelar, mais uma vez, uma brilhante atuação de Saoirse Ronan.

por Fernando Labanca

Apesar de já ter tido muitos de seus livros adaptados na tela grande, o escritor inglês Nick Hornby (Alta Fidelidade, Um Grande Garoto) tem se dedicado, nos últimos anos, aos roteiros para o cinema e tem se saído bem nesta linguagem. Após escrever filmes como "Educação" (2009) e "Livre" (2014), Hornby retorna agora com mais uma adaptação, e sem dúvidas, o grande trunfo de "Brooklyn" é seu roteiro. Na tela, acompanhamos a belíssima jornada de Eiles Lacey (Ronan), uma jovem irlandesa que sem perspectiva de vida em seu país, aceita a ajuda de um padre (Jim Broadbent), que lhe cede um passaporte e um trabalho nos Estados Unidos, a terra das oportunidades. Tímida e muito apegada a sua família, Eiles abandona tudo e parte sem saber o que lhe espera, encontra moradia em uma pensão, passa a trabalhar como atendente e a se dedicar aos estudos, mas apenas quando conhece o carismático Tony (Emory Cohen) é que compreende que aquele pode ser seu novo lar.




"(...) Sentirá tanta saudade, que vai querer morrer, 
e não há nada que possa fazer a respeito, a não ser esperar. 
Mas vai esperar. E isso não vai te matar. E um dia, o sol sairá. 
Talvez não note de imediato, mas vai sentir, 
e logo se dará conta de que está pensando em algo mais,
em alguém que não tem ligação com o passado, alguém que é só seu. 
E então vai perceber que este é o lugar onde sua vida está."



Fiquei me perguntando o filme inteiro como pode uma história sem nenhum conflito aparente e sem nenhuma reviravolta muito drástica conseguir ser tão fascinante, tão encantadora e prender tanto a atenção. Este é o grande mérito de seu roteiro, que instiga mesmo com uma trama simples, comum e que talvez nas mãos de outros profissionais poderia até ser esquecível, mas felizmente não é. Acredito que seja muito fácil criar uma empatia pela jornada de Eiles, ainda mais quando temos uma interpretação convincente como a de Saoirse Ronan, e mesmo que seja um retrato ocorrido na década de 50, a trama dialoga muito bem com os dias de hoje, é fácil se identificar com tudo o que vemos, com os dilemas da protagonista, principalmente quando você - assim como este que vos escreve - saiu de casa quando jovem, precisou se adaptar em um lugar que desconhece, deixando pra trás as pessoas que ama. É uma passagem natural na vida de muitos, aceitar que seu lar pode estar distante, amadurecer longe da família e perceber que saudade, por mais que nos destrua, nos torne mais fracos, é também aquilo que nos move e nos transforma.

"Brooklyn" também encanta por sua grandiosa produção, é mais um daqueles produtos refinados que só o cinema britânico é capaz de oferecer. Os figurinos, que tão bem retratam os costumes da época, as belas locações que o tornam ainda mais inspirador, além da bela trilha sonora composta por Michael Brook (Na Natureza Selvagem, As Vantagens de Ser Invisível). O que o torna, também, tão interessante são seus personagens e as variadas personalidades que chocam com a simplicidade de Eilis e que fazem desta história tão adorável que dá vontade de entrar lá e vivenciar um pouco de tudo aquilo. E sim, existe o romance e dos bons, e que felizmente não é o elemento que define a vida da protagonista, mas surge como sendo parte dela, naturalmente e a forma como o roteiro trabalha "o coração da moça dividida entre entre dois homens" é tão delicada e tão gostosa de ver, não é clichê e muito menos imatura, é apaixonante. Mérito de Saoirse Ronan e Emory Cohen, que delícia vê-los em cena, me senti sendo inundado por tantas coisas boas, tanto sentimento, fiquei com um sorriso bobo toda vez que os via e isso é bom porque quase nunca o cinema tem este poder.

Falar que Saoirse Ronan é uma das melhores atrizes de sua geração parece pouco, um discurso batido. Mas ela é tão completa e não vai ser um Oscar em sua carreira que vai definir isso, ela nasceu para estar ali e faz de filmes como este serem possíveis. Ronan traz em seu olhar e expressões muita honestidade, consegue provar seu enorme talento em pequenos detalhes, sem exageros, sem suplicar por um prêmio. Melhor ainda quando ela divide a tela com ótimos atores como Jim Broadbent, Domhnall Gleeson, com uma inspirada Julie Walters e um irreconhecível e cativante Emory Cohen. "Brooklyn" funciona com toda sua simplicidade, é um conjunto de acertos que tornam a obra admirável, divertida, romântica, fácil de assistir, fácil de gostar. Confesso que não me contive, me permiti ser levado por esta belíssima viagem, me emocionei em diversas passagens, sorri com suas boas intenções, me senti abraçado e comovido por sua ingenuidade e sua leveza, resumindo...me apaixonei. Um filme que inspira, que faz bem, "Brooklyn" é um brinde à vida e suas incertezas, um brinde aos tempos que virão.

NOTA: 9,5





País de origem: Irlanda, Reino Unido, Canadá
Duração: 111 minutos
Distribuidor: Paris Filmes
Diretor: John Crowley
Roteiro: Nick Hornby
Elenco: Saoirse Ronan, Emory Cohen, Domhnall Gleeson, Julie Walters, Jim Broadbent




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